Centro-Oeste é grande vencedor da interiorização da indústria brasileira
Enviado Terça, 12 de Maio de 2026.Peso do setor no PIB regional saltou de 6,1% para 8,9% em 40 anos, enquanto Sudeste liderou as perdas no período, mostra estudo
A indústria de transformação no Brasil se deslocou das regiões metropolitanas para se fixar, cada vez mais, no interior do país nos ultimos 40 anos. A conclusão faz parte do estudo “A redistribuição regional da indústria no Brasil”, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), antecipado ao Valor. Um dos líderes desse movimento foi o Centro-Oeste, puxado pelo “boom” agrícola nos últimos anos, diz Rafael Cagnin, diretor-executivo do Iedi. Esse movimento de “interiorização” da indústria deve prosseguir, afirmou.
A desconcentração geográfica da indústria brasileira é um processo estudado na academia. O foco do trabalho do Iedi, porém, foi tentar identificar para onde as fábricas se deslocaram. No estudo, é visível que as unidades fabris foram para Norte, Sul, Nordeste e Centro-Oeste. Desde 1985, essas regiões ganharam participação no emprego e no valor adicionado bruto (VAB) industriais do Brasil.
Em contrapartida, o Sudeste foi região que mais reduziu o grau de industrialização desde 1985. Isso ocorre quando cai a fatia da indústria de transformação no total do PIB e do emprego formal de um Estado.
Um dos fatores que contribuíram para esse cenário foi São Paulo, maior parque industrial do país. De 1985 a 2023, a fatia da indústria paulista no total do PIB estadual caiu de 38,3% para 18,3%. No emprego industrial, o tombo foi maior: a parcela do setor no emprego formal total do Estado diminuiu de 37,2% em 1985 para 17,1% em 2024.
O estudo traz os dados relacionados ao PIB estadual e ao VAB até 2023. As informações sobre emprego industrial vão até 2024. O VAB é a medida de riqueza criada por uma empresa, setor ou região. “Centro-Oeste e Sul estão entre as regiões que se destacam mais”, diz Cagnin.
O Centro-Oeste respondia por 1,7% do emprego da indústria de transformação em 1985. Passou a deter 6,9% do total de postos de trabalho do setor em 2024. No VAB da indústria da transformação do país, a fatia da região saltou de 1,37% em 1985 para 6,4% em 2023. Também foi a única região a mostrar crescimento no grau de industrialização. A fatia da indústria, no total do PIB do Centro-Oeste, subiu de 6,1% para 8,9%, de 1985 para 2023.
Cagnin ressalva que, nos dados da pesquisa, o Centro-Oeste partiu de base de comparação industrial baixa referente aos anos 1980. Naquele período, a região era pouco industrializada, lembrou. Com o passar das décadas, a atividade industrial no Centro-Oeste começou a acelerar, puxada pela expansão da fronteira agropecuária. Esse crescimento industrial se deu em atividades de menor intensidade tecnológica, como processamento de alimentos e bebidas, disse Cagnin. Mas também houve avanços em média-alta e alta tecnologias, como o polo farmacêutico em Anápolis (GO).
A parcela do Sul no total de emprego industrial nacional, aumentou de 19,6% para 26,6% de 1985 para 2024. No VAB industrial do país, a participação da região subiu de 17,02% para 23,2%, de 1985 para 2023.
Cagnin diz que o grau de industrialização do Sul caiu, desde 1985. Mas a queda foi menos intensa que nas outras três regiões (Nordeste, Norte e Sudeste). A participação da indústria de transformação no PIB do Sul passou de 27,5% para 21,2% de 1985 a 2023. E a fatia da indústria de transformação no total de empregados no Sul com carteira assinada diminuiu de 29,8% para 23,1%, de 1985 a 2024.
“Mesmo com o recuo, o grau de industrialização dos Estados do Sul segue bem maior do que média nacional. É a região onde o grau de industrialização é o mais elevado, ultrapassa 20% em todos os Estados, tanto na participação da indústria no PIB [estadual] como na fatia do setor no emprego total”, afirmou. “Isso demonstra a capacidade de retenção de atividades industriais no Sul”, resumiu.
Mesmo com as mudanças, o Sudeste continua preponderante nos totais de emprego e de VAB industriais nacionais em relação as outras regiões. Mas no estudo é possível visualizar mudanças importantes - como o fato de que a localidade abriga, hoje, menos da metade dos postos de trabalho no setor. A parcela do Sudeste no total do emprego na indústria da transformação diminuiu de 66,4% em 1985 para 49,3% em 2024. No VAB industrial nacional, a fatia da região reduziu de 69,11% para 55,3% de 1985 a 2023.
Vários fatores contribuíram para as mudanças, disse Cagnin. Houve encarecimento de terrenos e de mão de obra nas regiões metropolitanas, com problemas de trânsito e de crescimento urbano desordenado. São fatores que elevam custo de produção. Ir para o interior proporcionou distância menor das indústrias em relação às matérias-primas, com custo logístico menor. Essa lógica é válida, sobretudo, para os setores com maior crescimento nas décadas passadas, como as atividades primárias (mineração e agropecuária).
O pesquisador afirmou que a “interiorização” da indústria deve prosseguir. Esse movimento será impulsionado por busca de maior competitividade, incluindo vantagens logísticas de ficar mais próximo de recursos primários. É o caso, por exemplo, de biocombustíveis e da atividade de terras raras.
Cagnin lembra que os dados precisam ser vistos no contexto da desindustrialização da economia brasileira. Segundo o IBGE, a fatia da indústria de transformação no total do PIB do país caiu de 14,1% para 13,7% de 2024 para 2025, o menor desde 2020 (12,3%).
Na análise de Cagnin, a boa performance da indústria, no futuro, dependerá da capacidade do Brasil de estancar um processo de desindustrialização prematuro. Mas ele avaliou que a reorganização regional da indústria pode ser vetor de desenvolvimento econômico para o setor. Bastaria focar em mais investimentos em infraestrutura regional e em aprimoramento de mão de obra local. “O Nordeste, dentro dessas novas frentes industriais de oportunidades que vão se abrindo, aparece como candidato a desenvolver atividade industrial pela capacidade de geração de energia limpa”, afirmou.
Fonte: Valor Econômico
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