Presidente interino da Alerj convoca reunião sobre pleito para comando da Casa após TRE homologar recontagem de votos

Enviado Quarta, 15 de Abril de 2026.

Delaroli tenta definir data da eleição interna e acirra embate com aliados de Paes, que buscam adiar decisão até STF decidir modelo de disputa para mandato-tampão. Justiça eleitoral precisou fazer retotalização de votação em 2022 depois que Bacellar foi cassado

A Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) vive mais um capítulo de tensão política em meio à crise institucional no estado. Sob pressão de deputados da direita, o presidente em exercício da Casa, Guilherme Delaroli (PL), convocou para esta quarta-feira, às 13h, uma reunião do colégio de líderes para discutir a realização de uma nova eleição para a presidência do Legislativo estadual.

A convocação ocorre no mesmo dia em que o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) homologou a recontagem dos votos para definir a composição na Casa, após a cassação do deputado estadual e ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar (União), que havia sido eleito pelo PL — então suplente, Renan Jordy (PL) assumiu a vaga.

O movimento reacendeu a disputa interna pelo comando da Casa, posto na linha sucessória do governo do estado, que ganha ainda mais importância diante da vacância com a renúncia e a condenação do ex-governador Cláudio Castro (PL) — o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) entendeu que houve abuso de poder político e econômico no caso Ceperj.

No mês passado, a Justiça do Rio chegou a anular uma sessão em que o deputado Douglas Ruas (PL), pré-candidato ao governo do estado, foi eleito presidente da Alerj. O tribunal entendeu, justamente, que o processo eleitoral na Assembleia só poderia ser deflagrado após a retotalização dos votos com a cassação de Bacellar.

A intenção de Delaroli agora é deliberar com os líderes partidários uma data para o novo pleito. Na sessão plenária desta terça-feira, o clima entre os parlamentares foi de confronto aberto. Deputados de direita reagiram com irritação às articulações da oposição para barrar a eleição, elevando o tom das críticas.

— Não é admissível que se use de diversos expedientes contra uma instituição. Deputados desta Casa dizendo que vão entrar com uma ação para impedir uma eleição interna é um absurdo. Não há razoabilidade. Dizer que temos que esperar uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que nada tem a ver com a eleição aqui — afirmou o deputado Alexandre Knoploch (PL).

Na mesma linha, o deputado Bruno Dauaire (União) criticou o que classificou como tentativa de desmoralização do Legislativo e defendeu que a definição sobre o comando da Casa cabe exclusivamente aos parlamentares.

— Quem tiver problema com a Justiça que responda individualmente. Não podemos desmoralizar a Casa do povo. Esta Casa votou de forma unânime. Agora querem criar uma narrativa. Esse é um assunto que tem que ser decidido no plenário da Alerj — disse.

Em sentido oposto, o deputado Luiz Paulo (PSD), do partido do ex-prefeito e também pré-candidato ao governo do Rio Eduardo Paes, ponderou que o cenário jurídico ainda impõe cautela e defendeu o adiamento da eleição até uma definição do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o rito para eleger um governador-tampão.

— O Supremo aguarda a publicação do acórdão do TSE sobre o caso do governador (Cláudio Castro) para dar continuidade ao julgamento que vai definir o modelo de eleição e quem governará o estado. Nesse contexto, não é aconselhável, sob hipótese alguma, realizar a eleição para presidente da Alerj antes dessa decisão — afirmou.

Frente pede adiamento

A movimentação de Delaroli ocorre em meio a uma articulação de partidos de oposição para frear o avanço da eleição. PSD, MDB, Podemos, PT, PDT, PSB, Cidadania e PCdoB formaram uma frente e divulgaram nota defendendo o adiamento do pleito diante do que chamam de “desastre institucional e incerteza jurídica” após a cassação que levou à dupla vacância no estado.

As siglas argumentam que o STF já determinou a suspensão das eleições indiretas (pelos deputados estaduais) no Rio até julgamento definitivo, que deverá esclarecer, inclusive, a possibilidade de eleições diretas (pela população) para a vaga aberta desde a saída de Castro — o Palácio Guanabara é comandado interinamente pelo presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Ricardo Couto. Decisão do STF estabelece que ele fica no cargo até a Corte definir o modelo de eleição para o mandato-tampão. “Aguardar a conclusão do julgamento é fundamental para garantir segurança jurídica e estabilidade institucional”, diz o texto.

A estratégia também reflete dificuldades políticas. Aliados do grupo ligado a Paes chegaram a discutir nomes para enfrentar Douglas Ruas, como Vitor Junior (PTD), André Corrêa (PSD) e Rosenverg Reis (MDB), mas não houve consenso em torno de uma candidatura competitiva. O PSOL, que pretende lançar candidatura própria, ficou de fora da articulação. Segundo deputados da legenda, não houve tempo hábil para deliberação interna.

— Pessoalmente, eu concordo que a instabilidade política é razão suficiente para não termos eleições na Alerj enquanto não se esgotem todas as determinações do STF — afirmou a líder da bancada, Renata Souza.

 

Fonte: O Globo