O Rio de Janeiro continua lindo?

Enviado Quinta, 27 de Fevereiro de 2025.

A decadência é obra de várias mãos. O futuro do estado dependerá da capacidade de renovação, com retenção e atração de talentos

É marcante a presença estatal no Rio de Janeiro, que foi capital do Brasil por quase 200 anos. A elevada participação de servidores públicos na formação da sociedade provavelmente moldou as instituições e as crenças das elites que influem no desenho de políticas públicas. Demandas por um ambiente mais propício ao setor privado tendem a ser diluídas.

Sem entrar na discussão sobre a importância das demandas da sociedade para o desenvolvimento econômico, o fato é que os dados econômicos expõem a decadência do estado.

O estado exibe crescimento mais modesto em comparação à média nacional — taxa média de 0,9% a.a. entre 2010-2024, ante 1,2% do Brasil. Aqui não reside a maior preocupação, pois o crescimento acompanha a média do Sudeste.

O PIB per capita do RJ é o mais elevado dentre os estados. A boa notícia para aqui, pois a renda é muito mal distribuída. Pelo índice de Gini, o estado está na terceira pior posição do país, atrás apenas da Paraíba e do Piauí.

O resultado decorre da dificuldade do estado em desenvolver atividades econômicas para além da indústria extrativa. Esta utiliza relativamente menos mão de obra — no jargão técnico, é um setor capital-intensivo, e não trabalho-intensivo.

A indústria extrativa respondeu por 32% do PIB do estado em 2022 e 68,5% da produção nacional do setor. Isso depois de ter acumulado crescimento de 39,7% entre 2010-2022. Porém, gera apenas 1,2% do emprego com carteira no estado.

Enquanto isso, a indústria de transformação encolheu 16% no período; a construção contraiu 20,4%; e o comércio, 10,6%.

O resultado é o baixo dinamismo do mercado de trabalho. A taxa de ocupação (pessoas trabalhando em relação àquelas em idade de trabalhar) foi de 55,7% em 2024, ante 58,2% no restante do Brasil. E a taxa de desemprego ficou em 9,2%, ante 6,6% na média dos demais estados.

Outro dado é a informalidade no mercado de trabalho (38,3%). Apesar de ser um pouco inferior à média dos demais estados (39%), ela tem aumentado, na contramão do restante — em 2016, a informalidade no RJ era de 36,4%, e no restante do Brasil, de 40,9%.

As reduzidas oportunidades de trabalho e empreendedorismo, somadas à baixa qualidade do ensino básico, que se compara à de regiões pobres do país, resultam em desalento dos jovens. A população de jovens “nem-nem” (nem trabalham, nem estudam) atinge ¼ dos fluminenses entre 14 e 29 anos. Pior, a porcentagem em relação ao total de jovens nem-nem no Brasil tem crescido.

Acrescentando ainda fatores como a violência (taxa de homicídios estimados ainda acima da média nacional) e migração da população em idade de trabalhar para outros estados, chega-se ao envelhecimento precoce do RJ.

A população jovem encolhe desde 2008, e a população entre 14 e 64 anos, desde 2019. A população total deverá se reduzir já a partir de 2028, segundo o IBGE. No Brasil, a inflexão será depois, em 2042.

Com a estrutura econômica pouco diversificada, o baixo capital humano e a renda mal distribuída, compromete-se a perspectiva de crescimento do mercado consumidor e do empreendedorismo. Mantida essa tendência, a crise está contratada.

Governantes e os demais poderes não têm conseguido reagir a esse quadro. Na realidade, a ação estatal faz parte do desastre.

O RJ é o grande ganhador de receitas de royalties e participações especiais decorrentes da exploração de petróleo (R$ 26 bilhões em 2024). Esses recursos, contudo, não se traduzem em boas políticas públicas para promover o desenvolvimento do estado. E

m várias métricas, o RJ apresenta quadro estruturalmente frágil, como gastos com a folha e com inativos e pensionistas; e a dívida do estado é a mais alta da federação como proporção da receita (235%). Acordos da dívida com a União são celebrados, mas não são honrados, e o estado acaba sendo beneficiado por decisões do STF.

Chega a dar tristeza a decadência econômica do estado, ainda mais sendo referência no patrimônio histórico e na riqueza artística e cultural. Sem contar o capital humano nas universidades, que muito podem contribuir para a busca de soluções.

A decadência é obra de várias mãos. A ação estatal precisa ser voltada às funções essenciais, principalmente educação e segurança, e marcos jurídicos precisam prover um ambiente saudável para o investimento privado. O futuro do estado dependerá da capacidade de renovação, com retenção e atração de talentos.

Fonte: O Globo - Por Zeina Latif