Oposição a Ruas começa a se organizar na Alerj, mas tamanho dependerá da eleição presidencial

Enviado Quinta, 22 de Outubro de 2026.

Esquerda soma 19 cadeiras na Assembleia, mas número pode crescer com partidos de centro

A oposição ao governo de Douglas Ruas (PL), cujo partido terá a maior bancada da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), já começa a se articular para formar uma frente com algum poder de negociação na Casa. Apesar da movimentação, a definição de quem integrará esse grupo e quais serão suas estratégias ficará para depois do segundo turno das eleições presidenciais, no domingo, cujo resultado terá repercussão na política fluminense. A bancada de esquerda, que soma 19 parlamentares, já discute como enfrentará a força da legenda do governador eleito, que conquistou 21 cadeiras. Já os partidos de centro, entre eles o PSD do ex-prefeito Eduardo Paes, só definirão seu posicionamento quando o nome do futuro presidente for conhecido.

Ao contrário do Congresso Nacional, em que há o cargo formal de líder da oposição, indicado pelo bloco ou partido com maior representatividade, a Alerj não adota essa formalidade. As siglas podem ou não formar coalizões para ampliar seu peso político, com impacto principalmente na composição das 32 comissões permanentes, como a de Constituição e Justiça. Além da visibilidade política que proporcionam, esses colegiados podem acelerar ou atrasar a tramitação de projetos. A quantidade de cadeiras por partido ou bloco segue a proporcionalidade de cada grupo político, mas a distribuição das vagas de cada sigla por comissão e a escolha dos presidentes são historicamente determinadas pelo comando da Casa.

Acordão com Bacellar

Na atual legislatura, partidos de esquerda fecharam um acordo com o então presidente Rodrigo Bacellar (União) para obter mais espaço nas comissões em troca de apoio à reeleição dele. Hoje preso, o ex-deputado foi reconduzido ao cargo em 2024, por unanimidade: uma votação inédita, viabilizada pela aliança com a oposição. Com o afastamento de Bacellar, Guilherme Delaroli (PL) assumiu interinamente a presidência e, em seguida, foi substituído por Ruas, que ficará no comando até sua posse como governador, em 6 de janeiro. Ao assumir, Ruas chegou a retirar cadeiras da esquerda, como as presidências das comissões da Mulher e de Direitos Humanos.

O PL deve se manter na presidência da Alerj em 2027. O PSOL continuará com cinco deputados na próxima legislatura, mas deverá perder espaço nas comissões, já que não se desenha uma aliança ampla como a de 2024. O presidente estadual da sigla, Flávio Serafini, diz que é preciso aprender com os erros.

— Vamos trabalhar para que a oposição atue de forma unificada e com mais combatividade. Infelizmente, uma parcela dos parlamentares deste mandato resolveu compor com o governo e a direção da Alerj. Vamos estabelecer o diálogo institucional. O Parlamento é o espaço onde as diferenças têm que conviver, mas, diante do que está acontecendo com o Estado do Rio, a oposição precisa priorizar seu fortalecimento — explica.

Outra diferença em relação à Câmara dos Deputados é que, no Parlamento fluminense, a eleição da Mesa Diretora é feita por chapas fechadas. Cada uma precisa ter 13 nomes: o presidente, quatro vice-presidentes, quatro secretários e quatro vogais. A regra dificulta o lançamento de uma candidatura viável de oposição sem o apoio de partidos de centro.

Os partidos de esquerda elegeram uma bancada de 19 deputados, e o ex-presidente da Alerj André Ceciliano (PT), que retornará à Assembleia, tenta articular uma candidatura à presidência com o apoio dessas siglas e de algumas legendas de centro. Na avaliação de caciques fluminenses, porém, a capacidade de atrair outros espectros políticos também dependerá de quem será o novo presidente da República. Se Lula vencer, Ceciliano terá mais chances. Na esquerda, há ainda uma corrente que aposta em um alinhamento com o governo que amplie o espaço nas comissões e possa garantir até uma cadeira na Mesa Diretora, em troca do não lançamento de uma chapa independente.

Junto com o PT, o PSD tem a segunda maior bancada eleita da Alerj, com nove deputados. Ao admitir a derrota após um imbróglio judicial, o ex-prefeito Eduardo Paes publicou que seu grupo político seguiria “vigilante, acompanhando e cobrando resultados de um governo que representa a continuidade do grupo político que está no poder há oito anos”. O presidente estadual do partido, o deputado federal Pedro Paulo, afirma que a bancada é formada por parlamentares com perfil de diálogo e fiscalização e admite que o posicionamento dependerá do resultado da eleição para o Palácio do Planalto.

— Está muito cedo para falar sobre isso. Se Flávio Bolsonaro vencer, é um cenário. Se Lula ganhar, é outro. Isso inclusive impacta uma possível candidatura de André Ceciliano. A política tem seus tempos, e esse é um a ser respeitado — diz ele.

O PSD marcou para 11 de novembro uma reunião para decidir como se posicionará na Casa. Líder da sigla e um dos parlamentares mais antigos da Assembleia, Luiz Paulo Corrêa da Rocha diz que seguirá na oposição:

— Estou há 24 anos nessa Casa e sempre fui de oposição. Continuarei onde sempre estive, cumprindo a Constituição: fazendo o controle externo da gestão pública.

Outra decisão que pode influenciar o tamanho da oposição à gestão de Ruas é a composição partidária da base do governo. Uma ala do PL defende a exclusão de grupos políticos que apoiaram Eduardo Paes nas eleições, sobretudo o de Dr. Luizinho (PP). O Progressistas não tem hoje representantes na Mesa Diretora, mas a Secretaria estadual de Saúde é sua principal área de influência. O União Brasil, de Márcio Canella, também está entre os alvos desse grupo.

Sem caça a traidores

Guilherme Delaroli afirma que não haverá uma caça aos traidores e que o novo governo deverá chamar os partidos que declararam neutralidade para compor a base. Ele lembra que, para ter maioria absoluta, são necessários 36 votos, número que pode chegar a 42 em votações de propostas de emenda à Constituição.

— Eles podem não ter o mesmo espaço, mas não se governa apenas com os 21 deputados do PL. A oposição, porém, não deve ter o espaço que Bacellar abriu — diz.

O MDB lançou Jane Reis como candidata a vice-governadora na chapa de Paes. Os irmãos dela, Washington Reis, presidente estadual da sigla, e Rosenverg Reis, deputado estadual, acreditam que o apoio da família a Flávio pode superar a rivalidade da disputa estadual.

— O assunto vai ficar para segunda-feira. Dialogamos muito bem com o Flávio, e ele vai ajudar Rosenverg a ficar na Primeira Secretaria. Política é reciprocidade — afirma Washington Reis.

O PL trabalha atualmente com três nomes para substituir Ruas na presidência da Alerj. O mais cotado é o de Anderson Moraes (PL), ligado a Flávio Bolsonaro. Delaroli, próximo ao deputado federal Altineu Côrtes, e Jair Bittencourt (PL) também são citados por correligionários.

Fonte: O Globo