Lula e Flávio chegam à reta final sob pressão da economia e da rejeição
Enviado Quinta, 22 de Outubro de 2026.Cientista político aponta mobilização, debates, comunicação digital e alianças como fatores que podem influenciar o segundo turno
A disputa entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) entra na última semana antes da votação, no domingo, 25, com as campanhas diante de um desafio que vai além da conquista de novos votos: mobilizar suas bases, reduzir resistências e convencer eleitores que ainda não se identificam integralmente com nenhuma das duas candidaturas.
Na avaliação do cientista político Emerson Saraiva, com 38 anos de atuação na área, a reta final será marcada pela disputa por engajamento, pela exploração das vulnerabilidades dos adversários e pela tentativa de transformar apoios políticos e presença nas ruas em votos nas urnas.
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Segundo Saraiva, Lula precisa demonstrar capacidade de reorganização política diante do resultado do primeiro turno. Flávio, por sua vez, enfrenta o desafio de manter seus apoiadores mobilizados até o dia da votação, sem que uma eventual percepção de vantagem reduza o engajamento da campanha.
Rejeição pode limitar avanço das candidaturas
Com a disputa reduzida a dois candidatos, a rejeição ganha peso na estratégia eleitoral. Além de convencer eleitores indecisos ou dispostos a mudar de voto, as campanhas precisam lidar com quem descarta uma candidatura, independentemente das propostas apresentadas.
Nesse cenário, a disputa não se resume à capacidade de ampliar o próprio eleitorado. Também envolve explorar as fragilidades do adversário e evitar que críticas, controvérsias e avaliações negativas afastem apoiadores.
A abstenção acrescenta outra variável ao cálculo eleitoral. Eleitores insatisfeitos com as duas candidaturas podem optar pelo voto branco ou nulo ou simplesmente deixar de comparecer às urnas. Saraiva ressalta, porém, que a ausência também pode decorrer de dificuldades de deslocamento e de questões pessoais, sem necessariamente representar uma manifestação política.
O especialista chama atenção ainda para eleitores que evitam declarar publicamente suas preferências. Conceitos como a espiral do silêncio e o chamado shy voter ajudam a explicar por que opiniões políticas nem sempre são expressas abertamente, embora esses fenômenos não permitam, por si só, determinar a direção de um eventual voto.
Debates viram palco para confronto político
Os debates presidenciais podem ganhar importância nos últimos dias de campanha, especialmente por oferecerem aos candidatos a oportunidade de confrontar propostas, cobrar explicações e expor contradições do adversário.
“Os debates que não aconteceram no primeiro turno terão peso extraordinário nesses últimos dias”, avalia Saraiva.
Além do desempenho diante das câmeras, o efeito desses encontros depende da repercussão posterior. Trechos de respostas, acusações e embates são recortados e distribuídos pelas campanhas e por apoiadores nas redes sociais, onde passam a integrar a disputa de narrativas.
Para Lula e Flávio, portanto, os debates também representam uma oportunidade de reforçar a própria mensagem e tentar desgastar a imagem do adversário. O alcance político de cada episódio, entretanto, depende da interpretação dos eleitores e da repercussão que o conteúdo alcança fora da transmissão original.
Redes sociais ampliam disputa por narrativas
A comunicação digital ocupa espaço central na reta final. Publicações em redes sociais e mensagens distribuídas por aplicativos como WhatsApp e Telegram permitem às campanhas reforçar argumentos, mobilizar apoiadores e direcionar conteúdos a públicos específicos.
Segundo Saraiva, vídeos curtos, entrevistas e declarações em formatos próximos do cotidiano dos eleitores ajudam a apresentar os candidatos para além da propaganda tradicional.
A estratégia, porém, também amplia a disputa pelo controle da narrativa eleitoral. Conteúdos podem ser retirados de contexto, reinterpretados e utilizados para reforçar críticas ou sustentar versões favoráveis a cada candidatura.
O especialista pondera que a mobilização nas redes não deve ser confundida automaticamente com apoio eleitoral. O mesmo vale para os atos de rua: a capacidade de reunir milhares de pessoas demonstra organização política, mas não representa necessariamente a opinião da maioria do eleitorado.
Alianças políticas dependem de mobilização
Governadores, prefeitos, parlamentares e outras lideranças podem ajudar as campanhas a ampliar sua presença territorial e alcançar segmentos do eleitorado que não estão diretamente ligados às estruturas partidárias dos candidatos.
O apoio formal, contudo, não garante a transferência automática de votos. A influência de cada liderança depende de sua credibilidade junto à população, da identificação entre seus apoiadores e o candidato escolhido e do empenho efetivo na campanha.
“Isso depende muito da disposição que essas lideranças terão para efetivamente fazer campanha nessa reta final”, afirma Saraiva.
As alianças também podem produzir efeitos contraditórios. Ao mesmo tempo que ampliam a articulação política, determinadas aproximações podem gerar questionamentos entre eleitores que consideram os novos aliados incompatíveis com o discurso adotado durante a campanha.
Economia coloca governo e oposição em confronto
A situação econômica é outro ponto de pressão sobre as candidaturas. Renda, poder de compra, endividamento, impostos e condições de trabalho afetam a maneira como os eleitores avaliam o governo e as alternativas apresentadas pela oposição.
No caso de Lula, a campanha busca associar a candidatura à ampliação da renda e à proteção social, além de defender medidas adotadas durante o atual mandato. O desafio é fazer com que os resultados apresentados pelo governo sejam reconhecidos pelos eleitores em sua vida cotidiana.
Flávio, por sua vez, concentra parte de seu discurso em críticas à condução econômica do governo petista e em propostas relacionadas à austeridade fiscal, à redução de despesas e impostos e à eficiência da administração pública.
O embate envolve visões distintas sobre o papel do Estado e a condução das contas públicas. Enquanto o presidente tenta defender seu histórico de gestão, o senador busca apresentar sua candidatura como alternativa ao modelo econômico e administrativo em vigor.
Para Saraiva, a percepção individual sobre a economia precisa ser considerada ao lado dos indicadores oficiais. A avaliação que o eleitor faz do próprio orçamento, das despesas familiares e das perspectivas de renda pode influenciar sua decisão, mesmo quando os argumentos apresentados pelas campanhas apontam em direções diferentes.
Na reta final, a disputa reúne, portanto, fatores que vão além da exposição dos candidatos: rejeição, mobilização, alianças, debates e percepção econômica. Para as duas campanhas, o desafio é transformar esses elementos em apoio efetivo, sem presumir que a força das próprias bases ou o alcance das mensagens nas redes sociais sejam suficientes para conquistar votos adicionais.
Fonte: O Antagonista
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