Rio de Janeiro não teve fenômeno de votação nas urnas

Enviado Quinta, 08 de Outubro de 2026.

Candidatos recordistas do Rio têm menos de 3% dos votos, longe de outros estados

Os campeões das urnas fluminenses passaram longe dos números que consagraram os candidatos a deputado federal mais votados de outros estados. Fenômeno nas redes sociais, Nikolas Ferreira (PL) recebeu 3.119.318 votos em Minas Gerais — nada menos que 27,19% dos votos válidos, ficando no topo do ranking nacional. Em São Paulo, Lucas Pavanato (PL) também rompeu a barreira dos três milhões, com 12,82% dos votos válidos. No Rio, a liderança tem outra dimensão: Dr. Luizinho (PP) foi escolhido por 103.745 eleitores no último domingo, o equivalente a apenas 2,41% dos votos válidos.

Ao levar em consideração a relação entre o número de votos e o de eleitores, Dr. Luizinho fica na 291ª posição. No entanto, se analisado apenas o número absoluto de votos, o candidato fluminense sobe para a 15ª posição, de acordo com o site da Câmara dos Deputados. A mesma distância é observada entre os candidatos a deputado estadual do Rio e de outros estados. A recordista fluminense, Índia Armelau, recebeu 2,82% dos votos válidos.

Clientelismo e fusão

Especialistas listam algumas hipóteses para os percentuais serem baixos no Rio, que vão desde a perda do protagonismo político do estado, com a transferência da capital para Brasília, em 1960, até práticas clientelistas, em que os parlamentares aderem ao governo independentemente de ideologia, para garantir verbas para seus redutos e se manter no poder. A internet também tem destaque nas análises.

— Em 1962, Leonel Brizola se elegeu deputado federal pelo antigo Estado da Guanabara com 22% dos votos válidos. Era uma época em que tínhamos políticos que se destacavam nacionalmente, como o ex-governador Carlos Lacerda e outros. A realidade é que hoje não temos grandes nomes de expressão nacional na política. O reflexo disso aparece em votos mais dispersos — explica Marly Motta, especialista em história da política do estado.

Marly também acredita que a baixa representatividade dos mais votados é consequência da dificuldade em estabelecer prioridades na gestão do estado como um todo, passados mais de 50 anos da fusão da Guanabara com o antigo Estado do Rio:

— Interior e capital disputam até hoje o protagonismo e todo mundo perde. E as referências que tínhamos nos parlamentos vão sumindo.

Para André Eler, diretor-adjunto da empresa de consultoria Bites, especializada em análise de dados, uma das razões para essa pulverização é que o estado tem um perfil de voto mais distrital, em que o político representa determinadas áreas:

— As votações são mais dispersas aqui do que em outros estados, independentemente do tamanho do eleitorado, incluindo São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Roraima, por exemplo. Isso vale tanto para o político mais tradicional, que conta com redutos eleitorais, quanto para aqueles que se destacam pelo voto de opinião, por ideologia ou pela presença nas redes sociais — avalia Eler.

Curral eleitoral

Um dos que acreditam na tese de que os políticos fluminenses têm preferência por uma espécie de voto distrital é o ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União). O deputado foi o segundo mais lembrado nas urnas para a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Dos 197.118 votos que recebeu, 133.956 (67,9%) foram em Belford Roxo. No desempenho geral, porém, isso representou apenas 2,24% dos votos válidos em todo o estado. O político atribui seu desempenho nas urnas à proximidade que mantém com os eleitores e ao fato de concentrar seu trabalho no atendimento às demandas do dia a dia da população de sua região.

— Meu voto não é de opinião, mas sim de muito trabalho. Sou um “deputado-vereador”, voltado para atender às demandas de Belford Roxo e de cidades no entorno que pedem socorro a políticos, seja nas áreas de Saúde, Educação ou Segurança Pública, como o programa Barricada Zero, que implantei quando fui prefeito — diz o deputado.

Sobre a influência das redes sociais nas votações, André Eler observa que mesmo políticos fluminenses com muitos seguidores na internet não conseguiram repetir o desempenho de colegas de outros estados.

Destaque nas redes sociais, citado pelo especialista, o vereador Rick Azevedo (PSOL) foi o segundo mais votado no Rio para deputado federal. Rick decidiu entrar para a política depois de lançar na internet uma campanha pelo fim da jornada de trabalho 6x1, alegando que tinha pouco tempo para descansar. A ideia viralizou a ponto de levá-lo para a Câmara Municipal. Agora, com 191.371 votos (2,16% do total), embarcará para Brasília.

O desempenho de Rick contrasta com o de Fábio Félix, candidato do Distrito Federal pelo mesmo partido, que conquistou 224.224 votos, 13,41% do eleitorado.

— O Rio não tem um personagem como Nikolas Ferreira, que apoiou cerca de 20 deputados federais que foram eleitos pelo país. No Rio, ele conseguiu colocar Gabriel Costenaro (Novo) na Assembleia Legislativa — analisa Eler.

Egresso do Movimento Brasil Livre (MBL), Costenaro ficou conhecido em abril de 2024 quando se desentendeu com o deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) e foi retirado do prédio do Congresso a pontapés. Agora, os dois serão colegas em Brasília.

Comunicação digital

Professor da Uerj e da PUC-Rio, o cientista político Fábio Vasconcellos ressalta que os influenciadores campeões de voto já tinham uma carreira consolidada nas redes antes da política:

— Uma hipótese para essa baixa representatividade dos eleitos pode ser simplesmente a falta de talento para a comunicação digital. Os campeões de outros estados já eram campeões nas redes antes de entrar na política. Ou seja, me parece muito mais uma migração de talentos da comunicação digital para a política. E isso, em certa medida, se traduziu em votos.

Dos dez deputados federais eleitos com mais votos proporcionais no país, sete são considerados de perfil mais conservador; PT, PSD e PSOL completam a lista. No caso dos deputados estaduais e distritais, a relação conta com cinco do PL nas primeiras posições. Os outros cinco são do PT, União, MDB, Republicanos e Podemos. Nenhum deles eleito pelo Rio de Janeiro.

O vice-presidente da Câmara dos Deputados, Altineu Côrtes (PL-RJ), destaca que, na opinião dele, o mais importante foi o resultado no Estado do Rio.

— O PL saiu mais forte da eleição e um dos principais motivos foi o desempenho no Rio de Janeiro. Elegemos dois senadores, 15 deputados federais e 21 deputados estaduais. Quem poderia ter um desempenho melhor percentualmente nas urnas para deputado federal, por ser muito ativo nas redes, seria Carlos Jordy, mas ele optou por disputar uma das vagas do Senado e venceu — afirma Altineu, eleito deputado federal com 175.161 votos, o quinto colocado em número absoluto.

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: O Globo