Como o envelhecimento do país elevou o número de CNHs com exigência de adaptação

Enviado Terça, 29 de Setembro de 2026.

Ao todo, foram identificadas 289.503 CNHs com anotações no período analisado, de 2015 a 2024; 71.933 tinham 60 anos ou mais.

Exigência de óculos ou lentes, aparelhos auditivos, carros automáticos e outras adaptações nos veículos deixou de ser exceção e ganhou espaço nas carteiras de motorista dos brasileiros. Levantamento da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) divulgado ontem mostra que o número de condutores com algum tipo de anotação na Carteira Nacional de Habilitação (CNH) cresceu 28,2% em dez anos e já chega a quase um terço dos motoristas. O aumento das restrições está relacionado, entre outros fatores, ao envelhecimento da população.

Ao todo, foram identificadas 289.503 CNHs com anotações no período analisado, de 2015 a 2024. Mais da metade desses condutores (53,7%) tinha 45 anos ou mais: 83.742 estavam entre 45 e 59 anos, e 71.933 tinham 60 anos ou mais.

Os dados analisados pela Abramet, obtidos a partir de exames de aptidão física e mental, foram extraídos do Registro Nacional de Condutores Habilitados (Renach), da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), vinculada ao Ministério dos Transportes.

Não existe idade padrão fixada pela legislação brasileira para retirar o direito de dirigir do cidadão. Mas as anotações na CNH são restrições, adaptações do veículo ou condições obrigatórias impostas ao condutor para que ele possa dirigir de forma segura. Nesse caso, a informação deve constar no verso da CNH, em “observações”.

— Dirigir exige plena capacidade física e mental, e essas condições mudam ao longo do tempo. Por isso, é importante avaliar adequadamente as condições de saúde do motorista — explica o presidente da Abramet, Antônio Meira.

Três anotações por CNH

Embora o levantamento tenha identificado 289.503 documentos com anotações, foram registrados 861.504 apontamentos ao todo, uma média de três por carteira.

A maioria das exigências (68,1%) está relacionada à adaptação dos veículos. E a mais frequente é a obrigatoriedade de veículo com transmissão automática, que troca as marchas sem que o motorista precise usar pedal de embreagem, com 131.674 registros (15,3%). Perda de força muscular e desgaste nas articulações do condutor, por exemplo, são possíveis motivos da restrição.

O Departamento Nacional de Trânsito no Paraná (Detran-PR) observa que “adaptações no veículo como direção hidráulica e câmbio automático, assim como espelhos especiais para aumento da visibilidade, são os mecanismos de compensação mais importantes para o motorista idoso”.

Segundo o diretor científico da Abramet, Flávio Adura, a frequência da exigência do carro automático está relacionada também ao fato de que diferentes deficiências podem demandar essa adaptação.

— Se você tem uma amputação da perna direita, o acelerador vai ter que estar à esquerda, e o carro precisa ser automático — explica.

Direção hidráulica, com 101.859 registros (11,8%), e embreagem manual, com 57.286 (6,6%), manopla ou pomo no volante (acessório que permite girar o volante com uma só mão e menos esforço), com 51.254 registros (5,9%), e acelerador e freio manuais, com 46.179 (5,4%), são outras exigências que o avanço da tecnologia, o maior acesso a carros adaptados e a obrigatoriedade de exames feitos por especialistas em medicina do tráfego tornaram comuns nas CNHs.

— Houve maior facilidade no acesso ao carro adaptado, algo que, até alguns anos atrás, era muito difícil para parte da população. Também tivemos um avanço tecnológico, com veículos que passaram a permitir que pessoas com deficiências moderadas e graves possam dirigir. Esses profissionais especializados têm mais informações sobre medicina do tráfego e conseguem aplicar as restrições adequadas, permitindo que pessoas possam dirigir, apesar das condições de saúde, com segurança — observa Adura.

Esses fatores observados por Adura levaram a exigência de lentes corretivas, a mais frequente em 2015, a cair para o segundo lugar no ranking de anotações. No período analisado, foram 124.840 registros (14,5%) de registros sobre necessidade de óculos ou lentes, que aumentam nas faixas etárias mais avançadas — representam 17,6% entre condutores de 60 anos ou mais, contra 12,1% daqueles de 35 a 44. Em seguida aparecem visão monocular, com 45.685 (5,3%), surdez, com 25.056 (2,9%), e prótese auditiva, com 20.657 (2,4%). Ao todo, as anotações relacionadas a condições clínicas e ambientais correspondem a 30,6% do total.

O avanço da idade também aparece nas restrições relacionadas às condições de condução. Entre os condutores com 60 anos ou mais, a proibição de dirigir em rodovias e vias de trânsito rápido representa 5,1% das anotações, contra 1,4% entre aqueles de 35 a 44 anos. A vedação para dirigir após o pôr do sol corresponde a 4,1% dos registros entre os mais velhos, ante 1,1%.

— Nós sabemos que a população brasileira está envelhecendo e temos hoje um número considerável de condutores idosos. Temos motoristas dirigindo aos 80 e até aos 90 anos, com condições de saúde que permitem que continuem ao volante. Muitos deles, porém, precisam ser considerados aptos com restrições. O uso de óculos, por exemplo, é necessário para grande parte deles, assim como, em muitos casos, aparelhos auditivos. Essas restrições estão relacionadas, em grande medida, ao avanço da idade — explica Adura.

João Casares, de 73 anos, dirige diariamente; duas vezes por semana para ir e voltar da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde é aluno da Universidade Aberta da Terceira Idade (Unati). Como representante comercial, passa boa parte do tempo na estrada, visitando indústrias no Rio e em outras cidades. A exigência anotada na CNH, uso de lentes, está lá desde que tinha 23 anos e foi diagnosticado com astigmatismo. Mas ele sabe que precisa estar cada vez mais atento com o avançar da idade.

— Tomo o maior cuidado, porque é minha obrigação. O dia em que eu perceber que está arriscado para mim, vou parar, porque o tempo passa e a gente precisa ter mais cautela. A preocupação no trânsito é grande. Mas me sinto melhor no trânsito do que quando era jovem, por causa da experiência — conclui.

O presidente da Abramet destaca que a identificação das necessidades feita pelos profissionais impede que condutores dirijam sem as devidas condições.

— Essas pessoas estão conseguindo mecanismos que permitem que continuem dirigindo com segurança. O aumento pode significar que mais necessidades estão sendo identificadas e mais pessoas habilitadas em condições compatíveis com a saúde. Se não tivéssemos esses exames, muitos estariam se habilitando sem as obrigatoriedades — pontua.

Fonte: O Globo