Governador interino do Rio fala sobre seus planos nesta longa interinidade

Enviado Quinta, 28 de Maio de 2026.

Em sua primeira entrevista, o desembargador Ricardo Couto afirma que não sabe quanto tempo ficará no cargo e que passou a tomar decisões porque a população precisava dos serviços do Estado

Quem mora no Rio vive em permanente estado de desilusão. Viu tantos desmandos, tantos ex-governadores presos, tantos absurdos diários, que não espera muito da política, torce apenas para permanecer sendo capaz de se indignar. Por isso, estranha a gestão do governador em exercício, o desembargador Ricardo Couto. Ele tem tomado decisões que fazem sentido. Este é o espanto. O Rio não está acostumado com exonerações de pessoal excedente, fechamento de secretarias e expropriações de bens de devedores contumazes. Tudo o que é natural, não se espera.

Na primeira entrevista exclusiva do governador em exercício, ele me contou algumas de suas principais iniciativas. Uma delas é a de correr atrás do dinheiro do Banco Master para cobrir o rombo de mais de R$ 3 bilhões deixado no RioPrevidência.

O governador diz que está tomando todas as medidas possíveis e usando mecanismos judiciais para reaver o dinheiro dos aposentados e pensionistas do Rio. Contou que a Procuradoria estadual está buscando os que tomaram empréstimo no Master para que, em vez de continuar pagando o débito ao banco liquidado, direcionem ao governo fluminense. “Já está sub judice, eu tenho muita fé que o Estado venha a recuperar esses valores”.

Ricardo Couto exonerou mais de 2.700 funcionários e fechou várias secretarias. Ele me explicou, na entrevista que foi ao ar ontem à noite na GloboNews, que saíram dos cargos os não concursados e acha que deveria haver um limite de servidores que não são de carreira. Poderia ser 8%, por exemplo, como é no Tribunal de Justiça. Disse que os desligou porque achou que havia excesso de pessoal. Sobre a existência de fantasmas, ele contou que alguns contratados não compareciam ao local do trabalho. “Nós temos que saber o motivo. Tudo leva a crer que eram fantasmas. E, por isso, a impossibilidade de mantê-los nos quadros do poder público”.

O desembargador confirmou, como antecipado pelo jornalista Lauro Jardim, a intenção de desapropriar o terreno da refinaria de Manguinhos, a Refit, de Ricardo Magro, que, como se sabe, é um dos maiores devedores de impostos do Rio. Como o terreno é da União, está pedindo anuência para desapropriar. A Refit tem o domínio útil do local. O plano é cobrir os custos da operação usando parte da dívida de R$ 10 bilhões da empresa. “A ideia é expropriar e transformar aquela área num polo industrial, que já é. E temos vários interessados, como a Petrobras”. O valor que retornaria dessa operação seria resgatado pelos cofres estaduais.

Couto avalia que o Brasil não pode aceitar a ocupação territorial de partes do Rio por facções criminosas, mas defende que o poder público deve entrar nas localidades garantindo segurança, abrindo ruas e oferecendo serviços. Segundo ele, muitas vezes, os políticos temem tomar essa decisão pela possibilidade de perdas eleitorais, no entanto, considera que eles precisam fazer “para ontem” mesmo que arquem com as consequências nas urnas. “O Estado tem que entrar, não pode ficar nas mãos de milicianos. A população precisa receber titulação de propriedade. Temos que acabar com essa ideia de que a população vai lá e paga aluguel para miliciano, compra a propriedade do miliciano. Não é do miliciano isso. Nessas áreas nós temos que entrar, redistribuir a propriedade de forma imediata”.

Perguntei sobre a tragédia da sucessão de governadores do Rio com problemas na Justiça, caso de Cláudio Castro, alvo de duas operações da Polícia Federal no período de 11 dias. Ele acha que o eleitor precisa tomar cuidado nas suas escolhas. Avalia que há o risco de que fake news influenciem o voto da população, por este motivo, exalta a importância da imprensa, que ele diferencia da mídia social onde podem circular um excesso de notícias falsas.

A linha sucessória estava comprometida e o presidente do TJ assumiu. Ninguém sabe quanto tempo o governador em exercício permanecerá no cargo. Nem ele. “Eu não tenho noção de quanto tempo vou ficar”, diz. Apesar disso, diretamente do Tribunal de Justiça onde prefere ficar instalado, Couto tem tomado decisões já que a interinidade começou a se alongar e o cidadão precisava da prestação de serviço do Estado. O governador está governando. O Rio estranha.

Fonte: O Globo - Coluna Míriam Leitão