Inelegível, Castro não terá aval do PL para concorrer ao Senado

Enviado Quinta, 21 de Maio de 2026.

Após o acúmulo de atritos nos últimos anos, o rompimento entre o PL e Cláudio Castro é iminente, e o partido não dará a vaga de candidato ao Senado ao ex-governador do Rio, apurou o Valor. Mesmo estando inelegível por condenação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Castro esperava concorrer a senador sub judice. Para isso, porém, precisaria do aval da sigla, mas, segundo lideranças do PL, a legenda no Estado não quer mantê-lo na disputa.

O partido busca alternativas para lançar ao Senado. Quem escolherá o novo candidato será o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O parlamentar pode decidir ele mesmo concorrer à reeleição, a depender da evolução da crise aberta pela proximidade revelada com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Essa possibilidade é vista hoje ainda como improvável. Segundo um correligionário, Flávio pode optar pela reeleição se pesquisas indicarem queda de mais de oito pontos nas intenções de voto; se o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), decidir que o filho não deve tentar o Palácio do Planalto; ou se o próprio Flávio preferir a reeleição para não correr o risco de ficar sem mandato a partir de 2027.

Os outros nomes avaliados pelo PL para o Senado são o da mãe de Flávio, Rogéria Bolsonaro, e o dos deputados federais Sóstenes Cavalcanti, Altineu Côrtes e Carlos Jordy; todos do PL. A única possibilidade aventada fora da sigla é o do ex-secretário da Polícia Civil Felipe Curi (PP), pré-candidato à Câmara.

A ruptura entre Castro e PL se dá após o tensionamento das relações entre o ex-governador e a cúpula do partido no Rio. Apesar de o ex-chefe do Palácio Guanabara integrar a sigla desde 2021, o seu grupo político nunca esteve dentro da legenda, e os atritos que teve com o comando da sigla datam desde o início do governo Castro.

Quando ainda era interino no Executivo, ao assumir após o afastamento do ex-governo Wilson Witzel (Democrata), Castro exonerou Altineu Côrtes, presidente do PL fluminense, em 2020. Foi a primeira fricção com o comando da legenda. Ainda assim, no ano seguinte, Castro, já empossado, se filiou ao PL. Foi uma decisão do então governador junto ao ex-presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), Rodrigo Bacellar (União Brasil), que na época era apenas deputado estadual, disseram fontes.

As relações voltaram a ficar abaladas depois da eleição de 2022, quando Castro se reelegeu. De acordo com correligionários, o ex-governador passou a desdenhar do bolsonarismo, dizendo a interlocutores que era a “maior liderança da direita no Rio” e que tinha recebido mais votos do que Bolsonaro no Estado, berço político do ex-presidente. As falas causaram indignação em colegas de partido.

Depois daquele pleito, Castro e PL entraram em rota de colisão por conta da eleição da mesa diretora da Alerj. Havia acordo para que o partido, que havia feito a maior bancada da Casa, indicasse ao menos o primeiro vice-presidente ou o primeiro-secretário, e a presidência da Comissão de Constituição e Justiça. Castro e Bacellar manobraram e o PL ficou sem as vagas. Em resposta, o partido lançou um candidato próprio ao comando da Alerj. No fim, o ex-governador saiu vitorioso da quebra de braço e exonerou do governo outro dirigente da sigla, Bruno Bonetti, secretário do PL no Rio e presidente do diretório municipal na capital.

Naquela mesma época, início de 2023, Castro procurou o presidente nacional do PL, Valdemar da Costa Neto, para tomar para si a direção do partido no Rio. O cacique partidário não atendeu ao pedido, mas tentou colocar panos quentes na situação. A legenda, contudo, só foi integrar o segundo mandato de Castro no Guanabara meses depois, em setembro daquele ano, quando o deputado estadual Douglas Ruas (PL) foi nomeado para a Secretaria das Cidades.

Ruas, que hoje é o presidente da Alerj e pré-candidato ao governo, foi o único representante do PL no primeiro escalão da gestão Castro. Os demais postos eram ocupados pelo PP e União Brasil - este último era presidido por Bacellar até sua prisão, em dezembro, por envolvimento com o Comando Vermelho.

A escolha dos candidatos nas eleições também foi motivo de briga entre PL e Castro. Na disputa municipal, há dois anos, o ex-governador queria que o candidato a prefeito na capital fosse o presidente do PP no Rio, o deputado federal Dr. Luizinho, seu ex-secretário de Saúde e cuja base eleitoral é Nova Iguaçu. O PL, por sua vez, escolheu alguém da própria sigla, o ex-deputado Alexandre Ramagem, amigo pessoal da família Bolsonaro.

Já para a corrida deste ano, Castro queria que o postulante a sucedê-lo fosse Bacellar, até que os dois romperam as relações em julho do ano passado. Depois, passou a defender Luizinho para a vaga. No final, seu preferido passou a ser seu chefe da Casa Civil, Nicola Miccione. O partido queria desde o início que o candidato fosse Ruas.

Todo esse histórico se somou ao momento delicado que Castro vive. Além de estar inelegível, o ex-governador está na mira da Polícia Federal por suspeitas de favorecer a Refit na gestão estadual. Para que a crise não respingue mais na sigla, os dirigentes precisam indicar já um novo pré-candidato ao Senado.

Nesse cenário, as opções para Castro são restritas. Em razão da inelegibilidade, lideranças da siglas avaliam que “não há ambiente político nem jurídico” para que o ex-governador tente uma cadeira na Câmara, uma vez que a Justiça pode depois impugnar a candidatura e anular todos os votos que conseguir, o que afetaria o partido, já que a eleição de deputado é proporcional. Castro tampouco poderia tentar uma cadeira no Tribunal de Contas do Estado (TCE), pois há um impedimento de enquadrados na lei da Ficha Limpa assumirem uma vaga na corte. Procurado, Castro negou os atritos e disse que “mantém diálogo permanente com lideranças políticas em todo o Estado”. Altineu não respondeu.

Fonte: Valor Econômico