Reforma Tributária põe à prova cidade mineira conhecida como capital do e-commerce

Enviado Sexta, 17 de Abril de 2026.

Polo de centros de distribuição de produtos, Extrema, no Sul de Minas Gerais, tenta preservar empresas após o fim da guerra fiscal

Com o início da implementação da Reforma Tributária neste ano e o fim da chamada guerra fiscal do ICMS entre os estados, a dinâmica logística de Extrema, no Sul de Minas, deve passar por ajustes.

A cidade se consolidou como um dos principais polos de centros de distribuição de e-commerce do país ao combinar uma carga tributária menor em Minas Gerais com a proximidade estratégica da capital paulista, maior mercado consumidor do Brasil. Não à toa, passou a ser chamada de "capital do e-commerce", dada a atração de centros logísticos.

Com a transição para um novo sistema de impostos em curso, empresas que investem em centros de distribuição já avaliam outras cidades para os futuros investimentos. Extrema provavelmente perderá novos investimentos, mas executivos do setor avaliam que a infraestrutura logística já instalada ali seguirá formando um pólo dinâmico do setor de vendas on-line.

A transição da Reforma Tributária começou em janeiro deste ano. A proposta, que busca simplificar o sistema tributário brasileiro, substitui cinco tributos (ISS, ICMS, PIS, Cofins e IPI) por dois: o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS, estadual e municipal) e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS, federal).

Empresas que hoje contam com incentivos ligados ao ICMS poderão solicitar a habilitação para a compensação de créditos do imposto. Entre 2027 e 2032, as alíquotas do IBS serão calibradas e o ICMS e o ISS serão extintos.

Os galpões em Extrema seguiam com níveis próximos de 100% de locação no ano passado, segundo dados de mercado complicados pela consultoria Peers Consulting + Technology, a pedido do GLOBO, com informações referentes ao terceiro trimestre de 2025.

O relatório de Galpões Logísticos do Itaú BBA mostra que a região de Extrema encerrou o quarto trimestre do ano passado com vacância de 0,89%. Entre 2021 e 2025, o estoque de metros quadrados na cidade mais que dobrou, enquanto a taxa de vacância recuou de cerca de 10% para praticamente zero em 2025.

Já em Cajamar, Guarulhos e Jundiaí, o estoque de galpões cresceu entre 15% e 20%, com destaque para a região de Guarulhos, onde a expansão se aproximou de 30%. Ainda assim, a vacância também caiu: de patamares entre 10% e 15% para algo entre 5% e 8% — indicando uma tendência de ampliação e consolidação das operações logísticas no entorno da capital paulista, segundo a Peers.

Na avaliação da consultoria, os dados sustentam algumas hipóteses. Em Extrema, os incentivos fiscais continuam sendo atrativos, mesmo com custos de frete até 30% mais elevados, além do uso da cidade como centro de distribuição nacional ou regional. Há ainda empresas que podem estar antecipando ou migrando operações para capturar benefícios tributários válidos até 2033.

Nas regiões mais próximas de São Paulo, por outro lado, o diferencial competitivo tem sido a eficiência operacional. As empresas vêm utilizando esses polos para reduzir custos e encurtar prazos de entrega ao consumidor, com foco em capilaridade, conectividade e velocidade — especialmente no modal aéreo, impulsionado pela proximidade do Aeroporto Internacional de Guarulhos.

População quase dobrou

Guilherme Sales, diretor executivo da Peers Consulting + Technology, afirma que Extrema cresceu de forma exponencial, o que é corroborado pelos dados do IBGE. Segundo o Censo 2022, a população do município saltou de 28.599 habitantes em 2010 para 53.482 em 2022, uma alta de 87% no período, a maior registrada em Minas Gerais.

Além disso, o PIB per capita da cidade atingiu R$ 362,6 mil em 2021, ante R$ 65,9 mil em 2010. No ranking estadual, Extrema tem hoje a sexta maior economia entre os 853 municípios mineiros.

De acordo com Sales, o município chegou a direcionar cerca de 30% dos investimentos para a infraestrutura voltada à logística. Os principais fundos imobiliários de galpões logísticos do país estão instalados em Extrema, afirma. E esse crescimento acelerado já pressiona a oferta de mão de obra.

— Dado esse crescimento bastante alavancado da cidade, já falta mão de obra, além de haver uma grande rotatividade, de 40% a 60%. Em períodos de pico, como na Black Friday e no Natal, muitos temporários precisam ser contratados — acrescenta Sales.

Vantagem geográfica

O executivo destaca que a proximidade com São Paulo segue como um dos principais trunfos de Extrema, mas pondera que o custo do frete é cerca de 30% mais alto do que em polos como Cajamar.

Ainda assim, do ponto de vista financeiro, os incentivos fiscais compensam a diferença. Sales conta que, nos últimos cinco anos, já se observa um movimento claro das empresas aproximarem as operações do chamado centro de gravidade dos clientes.

Companhias como Mercado Livre, Shopee e Amazon vêm reforçando a presença em polos logísticos mais próximos da capital, como Cajamar, Guarulhos e a região do ABC Paulista, além de movimentações recentes em Santo André e São Bernardo do Campo.

— As empresas já estão migrando independentemente da reforma porque há esse movimento de eficiência operacional contra a eficiência fiscal para ganhar velocidade de entrega. Quando o caminhão sai de Extrema, precisa sair de madrugada. Nos outros centros, consegue sair às 6 horas da manhã. Isso é importante sobretudo quando as empresas, por conta de suas metas de sustentabilidade, buscam eletrificar sua frota.

Fim da guerra fiscal

Gabriel Quintanilha, professor da FGV Direito Rio, explica que a Reforma Tributária encerra a guerra fiscal entre estados e municípios, que historicamente recorreram a incentivos tributários para atrair empresas.

Em Minas Gerais, explica, há um regime especial para o e-commerce com alíquota que pode chegar a 1,3% nas operações interestaduais — bem abaixo da alíquota padrão de 12%.

No caso de produtos importados, acrescenta, o imposto não é recolhido no momento do desembaraço aduaneiro, mas apenas na saída da mercadoria. Se a empresa estivesse instalada no Rio de Janeiro, por exemplo, esse imposto seria pago duas vezes, diz o especialista.

— Sem dúvidas, todos os estados que usaram de benefício fiscal para se desenvolver vão ter problemas — observa Quintanilha. — Com a guerra fiscal, quem perde é o país, uma vez que o desenvolvimento regional passa a depender do benefício que reduz a arrecadação dos entes federados. Em Extrema, além da redução do ICMS que pode chegar a 75%, há isenção de ISS e de IPTU para novos empreendimentos.

'Queridinhas' da logística

Daniel Mota, professor de logística da Fundação Vanzolini e do CILIP-USP, explica que o Sudeste é, historicamente, um grande demandador de produtos de praticamente todos os setores. Como São Paulo tem custos elevados, tanto de locação de galpões quanto de mão de obra, a logística busca um ponto de equilíbrio entre proximidade do mercado e redução de despesas.

— Nessa dinâmica entre proximidade do mercado consumidor e custo, algumas regiões viraram “queridinhas” da logística. Estou falando de Louveira, Cajamar, Embú mais recentemente. Há um fator importante da logística que é o lead time, o tempo de entrega — ele diz.

Mota cita estudos que apontam que, quanto maior a distância entre o centro de distribuição e o mercado consumidor, maior precisa ser o volume de estoque para atender a demanda. Seria possível escolher o local mais barato do Brasil para instalar um armazém, mas isso exigiria caminhões saindo continuamente dessas regiões mais afastadas, além de um estoque muito maior.

A infraestrutura é um dos principais desafios. Por isso, áreas que conseguiram combinar proximidade com custos mais baixos acabaram se consolidando como clusters logísticos.

— A pergunta de 1 milhão de reais é se vai haver impacto da reforma sobre Extrema. Pelos benefícios, Extrema se tornou uma região interessante e atraiu muitas empresas. Na logística, existe esse conceito de cluster, de polos. É como se houvesse uma vocação numa determinada região e, em cima dessa vocação, as empresas acabam se especializando num setor. Há cidades com estrutura de navegação, transporte e infraestrutura para determinados setores — afirma Mota.

Sem o benefício fiscal, diz, pode até ser que a região sofra, mas Extrema já desenvolveu uma capacidade operacional que a diferencia de outras cidades, observa o pesquisador. A cidade já tem rotas estruturadas, operadores logísticos instalados e capital humano qualificado, observa o pesquisador.

— Essa reforma visa, em alguma magnitude, tornar mais balanceada a tributação e, em última instância, isso poderia levar a um aumento de demanda. Esse aumento de demanda precisa ser armazenado em algum lugar, e as empresas investem onde elas já conhecem e dominam, ao invés de abrir uma frente totalmente nova, enfrentando desafios de um lugar que está começando agora.

Fonte: O Globo