O silêncio na Alerj e o medo que paira sobre deputados

Enviado Terça, 03 de Março de 2026.

Deputados evitam comentar investigação da PF; clima é de medo de novas fases da apuração e possível análise de celulares apreendidos

O avanço do inquérito da Polícia Federal contra o presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio, Rodrigo Bacellar, mergulhou a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) em um ambiente de silêncio e tensão. Nos corredores da Casa, o tema virou tabu. Deputados de diferentes partidos têm evitado falar publicamente sobre o caso — e até reservadamente. Interlocutores descrevem um “clima de medo” diante da possibilidade de novas fases da investigação, que já tramita no Supremo Tribunal Federal (STF).

O receio não é apenas político: é jurídico. Entre parlamentares, circula a informação de que pode haver um novo inquérito relacionado ao conteúdo dos celulares apreendidos com Bacellar durante a operação que resultou em sua prisão, em dezembro. A eventual extração e a análise de dados ampliariam o alcance das apurações, hipótese que tem causado apreensão.

— Ninguém quer falar. O clima é de cautela total — resumiu um deputado.

Até aliados históricos do presidente afastado têm adotado postura discreta. A avaliação interna é que qualquer declaração pública pode ser interpretada como alinhamento ou tentativa de defesa prévia, gerando desgaste político ou eventual associação ao caso. O que pesa ainda mais em ano de eleição.

O temor de que novas investigações possam atingir outros gabinetes contribuiu para a retração. Parlamentares relatam que o ambiente mudou desde a prisão de Bacellar e que o caso passou a ser tratado apenas em conversas reservadas, longe de microfones e redes sociais.

— O medo é opinar e acabar sendo incluído em alguma narrativa. Hoje, todo mundo está medindo as palavras — afirmou outro integrante da Casa.

O peso da investigação também impactou discussões internas sobre a condução da Assembleia durante o afastamento de Bacellar. O mandato-tampão que poderia reorganizar o comando da Casa até o fim do período de licença — perdeu força nos bastidores.

Deputados evitam se posicionar sobre cenários de sucessão ou rearranjos na Mesa Diretora. A avaliação é que qualquer movimentação pode ser interpretada como oportunismo político em meio a um processo ainda em curso no STF.

Enquanto o relatório da PF aguarda os próximos passos processuais, a palavra de ordem na Alerj tem sido prudência.

Fonte: O Globo