O novo xadrez fiscal: por que a reforma tributária muda as regras do jogo?

Enviado Quarta, 11 de Fevereiro de 2026.

Durante décadas, o Brasil jogou um jogo tributário cujas regras eram, na melhor das hipóteses, confusas. Guerra fiscal entre estados, cumulatividade de impostos e um emaranhado de legislações que desafiava até os enxadristas mais experientes.

Com a aprovação da reforma tributária e o avanço das regulamentações da Lei Complementar, o tabuleiro foi virado. As peças mudaram, o objetivo foi redefinido e, agora, as empresas precisam aprender a jogar o "novo xadrez fiscal".

Engana-se quem acredita que a simplificação prometida pelo IVA Dual (IBS e CBS) significa facilidade imediata. Pelo contrário: acabamos de entrar na fase mais crítica da partida, que é o período de transição. Entre 2026 e 2033, as empresas viverão uma realidade de "dupla personalidade fiscal", tendo que apurar os tributos do sistema antigo (PIS, COFINS, ICMS, ISS) enquanto implementam e testam o novo modelo.

O primeiro grande desafio deste novo jogo é a mudança de paradigma da origem para o destino. Historicamente, a tributação ocorria onde o produto era fabricado ou o serviço prestado. Agora, o imposto é devido onde o consumo acontece. Isso derruba a lógica de incentivos fiscais que sustentou o planejamento estratégico de indústrias por anos.

A pergunta que o CEO deve fazer ao seu time fiscal não é mais "onde a fábrica deve ficar para pagar menos imposto?", mas sim "como minha logística e precificação serão impactadas ao vender para o estado X ou Y?". A inteligência fiscal deixa de ser um acessório de compliance e torna-se vital para a formação de preço e margem de lucro.

Outro ponto de atenção que exige movimentos precisos é a tecnologia. A reforma tributária brasileira nasce digital. O conceito de split payment, que prevê o recolhimento do imposto no momento da liquidação financeira da transação, é revolucionário, mas impõe questões quanto ao fluxo de caixa. Se antes as empresas tinham prazos para recolher tributos, financiando-se com esse dinheiro no curto prazo, agora o fisco retém sua parte em tempo real.

Neste cenário, a tecnologia fiscal não é mais sobre preencher guias, mas sobre conectividade e validação instantânea de regras. Quem ainda opera com sistemas legados ou processos manuais corre o risco de travar sua operação comercial. Qualquer erro no cadastro de um produto ou na classificação de um serviço não resultará apenas em uma multa futura, mas no bloqueio imediato da operação ou na retenção indevida de valores.

Além disso, temos a questão da não cumulatividade plena. A promessa de que "tudo gera crédito" é música para os ouvidos empresariais, mas a operacionalização disso exige um controle rigoroso. A empresa precisará garantir que seus fornecedores estejam regulares para que o crédito seja validado. Isso transforma a gestão de terceiros em uma peça-chave do tabuleiro. Um fornecedor inadimplente com o fisco pode se tornar um "peão" que impede a vitória na partida.

Portanto, o novo xadrez fiscal exige antecipação. Não basta esperar a obrigatoriedade bater à porta. As empresas precisam, agora, rodar simulações de impacto, revisar contratos de longo prazo, adaptar seus ERPs e, acima de tudo, aculturar seus times. O contador deixa de ser um "apurador de impostos" para se tornar um estrategista de dados.

A reforma tributária é, sem dúvida, um avanço necessário para a competitividade do Brasil no longo prazo. Mas, no curto e médio prazo, ela vai separar o mercado entre aqueles que entenderam as novas regras e aqueles que insistiram em jogar damas em um tabuleiro de xadrez. A simplificação virá, mas antes dela, teremos a complexidade da adaptação. E neste jogo, vence quem tiver a melhor tecnologia e a visão mais clara do tabuleiro.

Fonte: Folha de S. Paulo