Entre supersalários e falta de transparência, Congresso deve explicações ao contribuinte
Enviado Quinta, 05 de Fevereiro de 2026.A Câmara deve explicações ao contribuinte brasileiro. Enquanto se discute uma Reforma Administrativa que busca acabar com distorções e aumentar a transparência, projetos aprovados nesta terça-feira pela Casa vão exatamente na direção contrária. Um projeto cujo texto não se sabe exatamente de onde veio, além de reajustes aos servidores, cria, por exemplo, uma escala 3 por 1, que garante direito a uma folga a cada três dias de trabalho — uma benesse sem cabimento no momento em que o país começa a discutir o fim da escala 6 por 1. Com essa medida, cria-se mais um penduricalho: se não houver a folga, o servidor recebe em dinheiro, sendo que esse adicional é livre de Imposto de Renda. Também foram estabelecidas gratificações que abrem brecha para que a remuneração dos servidores ultrapasse em até 100% o teto — mais um absurdo inexplicável.
E não foi só a Câmara. O Senado aprovou um projeto que cria novas vantagens para um grupo já privilegiado de servidores. Na escala do salário médio do funcionalismo público, o Judiciário está no topo do ranking, seguido pelo Legislativo, com o Executivo na terceira posição.
Também foi aprovado um projeto do Executivo — este discutido há mais tempo — que cria novos cargos, a maioria no Ministério da Educação, principalmente para professores. Não se trata de cargos da atividade-meio, mas da atividade-fim, afinal é preciso ampliar o quadro de educadores. Ainda assim, isso precisa ser melhor compreendido.
O fato é que a Câmara concedeu não só aumentos que representam o dobro da inflação — o que levará salários-base a praticamente dobrarem até 2029 — como também criou penduricalhos que distorcem completamente a remuneração dos servidores. Há um segundo ponto, que é a falta de transparência. E um terceiro, que é a abertura de novas possibilidades de remuneração acima do teto.
A proposta de Reforma Administrativa do deputado Pedro Paulo acaba com qualquer remuneração acima do teto. O ministro Fernando Haddad apresentou ao Congresso uma proposta para que a lei fosse cumprida — o fim dos supersalários, ou seja, que ninguém recebesse acima do limite estabelecido —, mas a medida sequer foi votada pelos parlamentares e acabou arquivada.
O gasto público é importante, como escrevi aqui nesta terça-feira, para que os órgãos cumpram sua missão. O gasto aprovado pela Câmara nesta terça-feira, no entanto, não respeita o contribuinte.
Há ainda um ponto essencial: não se sabe exatamente quanto essas propostas aprovadas vão custar nem de onde sairão os recursos. O governo federal informou que o custo total será de R$ 5,3 bilhões neste ano. Mas ainda não há clareza sobre o impacto das demais medidas. E a Câmara sabe que não se pode aprovar novos gastos sem definir o tamanho do impacto ao longo do tempo e qual será a fonte de custeio — é isso que estabelece a Lei de Responsabilidade Fiscal. Esse esclarecimento ainda é devido pelo Congresso Nacional.
Fonte: O Globo - Coluna Míriam Leitão
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