Coordenação invisível: investigação contra o PCC encontrou rede de empresas fictícias conectadas pelo mesmo endereço digital
Enviado Sexta, 29 de Agosto de 2025.Notas fiscais eletrônicas emitidas do mesmo ponto virtual levantaram suspeitas da centralização das fraudes: 11 CNPJs movimentaram R$ 6,4 bilhões a partir de um mesmo endereço de IP
Uma descoberta técnica da Secretaria da Fazenda de São Paulo (Sefaz-SP) expôs a sofisticação da engrenagem financeira por trás da Operação Carbono Oculto, que investiga a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) em atividades da economia formal, especialmente o setor de combustíveis. Segundo as investigações, pelo menos 11 empresas diferentes utilizaram o mesmo endereço de IP para realizar 76,2% de suas operações fiscais.
Um endereço de IP é como o RG de um computador na internet. Ele funciona como um número de identificação que todo dispositivo conectado à rede precisa ter — seja um celular, um computador ou até o sistema de uma empresa.
Assim como não existem dois RGs iguais para pessoas diferentes, em tese cada endereço de IP deveria ser único. Ele indica de onde partiu uma conexão e pode ser rastreado para entender quem estava por trás de uma operação online.
No caso investigado pela Operação Carbono Oculto, a repetição do mesmo IP em empresas diferentes é um indício forte de que elas não atuavam de forma independente, mas que estavam conectadas a um mesmo “centro de comando digital”. Juntas, essas empresas que compartilharam o registro digital movimentaram R$ 6,4 bilhões.
As distribuidoras Orizona Combustíveis S/A, Start Petróleo S/A, Port Brazil Distribuidora de Combustíveis Ltda. e Estrela Distribuidora de Combustíveis Ltda. foram identificadas emitindo notas fiscais eletrônicas a partir dos mesmos endereços de IP.
A repetição sugere, segundo as investigações, uma operação controlada a partir de um único centro, e não a atuação de empresas autônomas. O mesmo se aplica à Império Comércio de Petróleo S/A, listada em conjunto com Maximus, Estrela, Orizona, Start e Port Brazil, todas vinculadas ao mesmo protocolo de rede.
Outro elo identificado pela investigação é o da Rodopetro Distribuidora de Petróleo Ltda., que também compartilha IPs com distribuidoras ligadas ao mesmo grupo. Segundo os investigadores, esse tipo de coincidência não ocorre em um realmente competitivo e mostra uma espécie de ‘coordenação oculta’ entre empresas de fachada.
As relações entre as empresas se tornam ainda mais evidentes quando cruzadas com outros dados. A Start Petróleo S/A e a Port Brazil Distribuidora de Combustíveis Ltda. foram flagradas vendendo combustível para postos que utilizavam o mesmo número de telefone.
Esses dados ajudaram os investigadores a identificar uma atuação orquestrada para manter em vigor práticas de fraude, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
A Operação Carbono Oculto, que investiga a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) em atividades da economia formal, especialmente o setor de combustíveis, também atingiu nomes de peso da Avenida Faria Lima, centro financeiro de São Paulo.
A investigação apura como o Primeiro Comando da Capital (PCC) se infiltrou na economia formal, em especial no setor de combustíveis, utilizando gestoras e fintechs para lavar dinheiro. Dos 350 alvos da operação, 42 estão concentrados na Faria Lima.
Segundo a Receita Federal e o Ministério Público de São Paulo (MPSP), tratava-se de um esquema complexo com várias frentes, que começava nas usinas sucroalcooleiras e na formulação de gasolina e diesel, e seguia com um esquema de ocultação de dinheiro por meio de fintechs e fundos de investimento.
De acordo com as investigações, entre 2020 e 2024, empresas formuladoras de combustível ligadas ao PCC importaram R$ 10 bilhões em nafta, hidrocarbonetos e diesel, usando dinheiro ilegal da facção. Essas empresas sonegavam impostos — que totalizaram R$ 8,67 bilhões — e também adulteravam combustíveis distribuídos nos postos.
Além do setor de combustíveis, outros setores da economia formal são utilizados pelo crime organizado para lavagem de dinheiro. Entre eles, estão o mercado imobiliário, transporte público, mineração, cigarros, comércio de bebidas, e o próprio setor financeiro. Estas atividades ajudam a esconder produtos de atividades criminosas e diversificar os negócios das organizações criminosas, criando uma aparência de legalidade para a sua atuação.
Fonte: O Globo