Empresa de setores como mineração e aviação investem em startups de baixo carbono para acelerar transição energética
Enviado Quinta, 28 de Agosto de 2025.Vale, por exemplo, fez aporte em empresa americana que criou tecnologia pioneira para descarbonizar a geração de calor em fornos industriais; conheça outras iniciativas
O avanço da agenda climática transformou a lógica dos investimentos corporativos. Em um primeiro momento, grandes companhias, muitas delas ligadas a setores intensivos em emissões de gases de efeito estufa (GEE), olharam para “dentro de casa” e para o redesenho e implantação de processos mais limpos. Agora, elas miram startups de baixo carbono como estratégia para acelerar sua transição energética.
Empresas como Chevron, United Airlines e a brasileira Vale realizaram aportes minoritários e até aquisições completas, em um movimento que liga setores tradicionais a soluções externas para alcançar a neutralidade de emissões até 2050.
Um dos casos recentes é o da Vale. Por meio da Vale Ventures, a mineradora intensificou investimentos em tecnologias capazes de transformar processos industriais altamente emissores. A empresa fez um aporte na startup americana Electrified Thermal Solutions (ETS), que arrecadou US$ 19 milhões em sua última rodada.
A indústria siderúrgica, sozinha, responde por aproximadamente 8% das emissões globais de GEE. Isso torna os investimentos em inovações para reduzir sua pegada de carbono uma necessidade de primeira ordem. Chefe da Vale Ventures, Bruno Arcadier afirma que o investimento na ETS se conecta diretamente à estratégia de descarbonização da mineradora no futuro.
— A Vale investe globalmente em startups com foco em soluções sustentáveis para o futuro da cadeia de valor da mineração, reforçando a ambição de zerar suas emissões líquidas até 2050, além de gerar retornos financeiros e estratégicos que beneficiem clientes e sociedade — afirma.
A aposta em startups está ligada à crença de que as tecnologias emergentes podem, no futuro, contribuir de maneira decisiva para os objetivos estratégicos da companhia. As metas da Vale são reduzir em 33% as emissões de escopo 1 e 2 até o ano de 2030 (em relação a 2017) e alcançar emissões líquidas zero até 2050. No escopo 3, ligadas à cadeia de valor, como a produção de aço, a ambição é reduzir em 15% até 2035.
A ETS utiliza uma tecnologia considerada pioneira para descarbonizar a geração de calor no aquecimento de fornos industriais por meio de eletricidade, sem combustíveis fósseis. Segundo Arcadier, o investimento tem potencial de, no futuro, contribuir para a descarbonização das emissões diretas de escopo 1 e 3.
A tecnologia da ETS consiste em um “tijolo” refratário eletricamente condutivo, capaz de gerar calor a temperaturas de até 1.800°C utilizando eletricidade limpa e de baixo custo. Com isso, tem o potencial de substituir o gás natural no aquecimento de fornos industriais. A primeira planta-piloto em escala comercial deve ser inaugurada ainda neste ano.
Segundo Pedro Côrtes, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental e do Instituto de Estudos Avançados da USP, essas iniciativas são um caminho para acelerar a transição para uma economia de baixo carbono. Segundo ele, as corporações consolidadas têm um papel estratégico por terem poder de escala e de disseminação de boas práticas em cadeias muito amplas, o que naturalmente inclui startups.
Côrtes explica que investir em startups permite mudanças mais rápidas.
— É uma maneira que as grandes corporações têm de agir rapidamente no sentido de reduzir emissões — afirma o professor. — É uma forma de se conseguir resultados mais rápidos do que investir somente na mudança de uma cultura organizacional já existente.
Desde sua criação, em 2022, a Vale Ventures reservou US$ 100 milhões para investimentos em startups que ajudem a companhia em três frentes: descarbonização da cadeia de valor da mineração, mineração circular e mineração sustentável do futuro. Entre os aportes já realizados estão a Boston Metal, que desenvolve soluções para descarbonizar a produção de aço, a Mantel, focada em captura de carbono, e a Allonnia, que aposta em biologia transformacional.
O movimento da Vale não é isolado no Brasil. Outras empresas de tamanhos variados têm feito o mesmo. A Intelbras, por exemplo, comprou a Renovigi, startup de energia solar, em um negócio de mais de R$ 300 milhões. A ArcelorMittal, por meio do fundo Açolab Ventures, reservou mais de R$ 100 milhões para investir em startups inovadoras que contribuam com a siderurgia mais sustentável.
Fora do cenário nacional, a Chevron lançou um fundo de US$ 500 milhões para startups de baixo carbono, enquanto a United Airlines criou um fundo para fomentar a produção de combustíveis de aviação sustentáveis. No caso da petroleira, o objetivo é diversificar sua atuação e investir em soluções emergentes ligadas a combustíveis limpos, novos materiais e tecnologias capazes de reduzir emissões em setores de difícil abatimento.
Já a United, por sua vez, criou um fundo específico voltado à produção e ao desenvolvimento de Sustainable Aviation Fuel (SAF), os combustíveis sustentáveis para aviação, considerados peça-chave para a redução das emissões no setor aéreo. Com apoio de parceiros como Google, Boeing e Air New Zealand, a companhia já investiu em dez startups e tem como meta viabilizar a produção futura de 5 bilhões de galões de SAF.
Elise Calixto, chefe da área de Infraestrutura e Energia do FAS Advogados, diz que as empresas buscam essas ações, assim como as reduções de emissões, como uma forma de entrar em determinados mercados e por motivos reputacionais.
— O investimento dessas empresas, dessas grandes emissoras, grandes poluentes em startups é uma tendência que ela vem de uma necessidade — afirma.
Fonte: O Globo