Regulamentação da Reforma Tributária reabre ‘guerra do óleo de cozinha
Enviado Terça, 29 de Outubro de 2024.Retomada da negociação no Senado mobiliza produtores de tipos vegetais que ficaram fora da isenção da cesta básica
A divulgação do cronograma para a tramitação da regulamentação da Reforma Tributária na semana passada no Senado foi a senha para produtores de óleos vegetais como canola, algodão e girassol acionarem seus lobbies. Eles também querem um lugar na cesta básica que será isenta de imposto no novo sistema.
A partir desta semana e até meados de novembro, estão previstos debates para avaliar mudanças no projeto, segundo programação definida pelo senador Eduardo Braga (MDB-AM), relator do tema na Casa.
A aprovação do texto na Câmara deixou um batalhão de descontentes no setor. O governo havia enviado inicialmente a sugestão de que somente o óleo de soja constasse na cesta básica — e tivesse acesso à alíquota zero. A decisão já havia incomodado os demais produtores, preteridos na lista da benesse tributária.
O desenho final feito pelos deputados piorou a situação, dizem os produtores deixados de fora. O grupo de trabalho da Reforma Tributária aceitou incluir o óleo de babaçu na cesta básica, revoltando representantes dos demais setores.
A inclusão foi defendida pelo deputado Hildo Rocha (MDB-MA) como forma de incentivar a economia maranhense. Segundo o deputado, o estímulo ao babaçu ajudaria ainda a mitigar o impacto ambiental do cultivo de soja.
A manobra criou dois problemas. O óleo de babaçu até é utilizado para cozimento em locais do Nordeste, mas, além de caro, o produto costuma ser usado mesmo para fins cosméticos. E sua inclusão abriu um precedente. Vendo a janela de oportunidade, o lobby do milho entrou em ação.
Janela aberta
Na última versão do texto da regulamentação, já com o debate em curso no plenário para a aprovação do texto pelos deputados, o relator do projeto, Reginaldo Lopes (PT-MG), aceitou incluir também o óleo de milho na cesta básica. Todos os demais óleos de cozimento ficaram apenas com alíquota reduzida.
É esse jogo que agora os outros produtores querem mudar. E a fila de interessados é grande. Almejam a vantagem tributária os óleos de canola, girassol, algodão, coco, palma, dendê, linhaça, entre outros.
O principal argumento é que a reforma está criando uma distorção no mercado e dando vantagens competitivas a apenas alguns tipos de óleos vegetais.
— O que aconteceu na Câmara nos causou muita estranheza. Por que privilegiar só soja e milho? O consumidor tem de ter a escolha e nós precisamos das mesmas condições para competir. O Brasil é produtor de inúmeros tipos de óleos comestíveis com benefícios nutricionais inclusive muito maiores — diz Hiltom Lima, presidente do Sindicato da Indústria da Extração de Óleos Vegetais do Estado da Bahia (Sincaol).
Para o setor, a solução seria colocar todos os tipos de óleo vegetal na alíquota zero em vez de dar tratamento tributário distinto no segmento.
— Gostaríamos que todos os óleos comestíveis entrassem na cesta básica. Nós não enxergamos prejuízo, porque não vemos aumento de alíquota com esse movimento e você daria isonomia entre todos os fabricantes, diz Dalton Cordeiro Miranda, diretor de Negócios Jurídicos da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove).
Integrantes da equipe econômica admitem que o texto da Câmara criou, de fato, uma assimetria. O time de Fernando Haddad, contudo, tem reservas quanto à solução proposta pelos produtores de óleos vegetais.
Para o Ministério da Fazenda, somente o óleo de soja atende aos dois critérios elencados na triagem de quem deveria ter direito à alíquota zero: estar no guia do Ministério da Saúde para a alimentação saudável e ser um produto consumido majoritariamente pelos mais pobres.
Hoje, o óleo de soja é encontrado nos mercados pela metade do preço dos demais óleos de cozimento, o que o torna muito mais utilizado. Em seguida, na mesma faixa de preço, vêm produtos como os de milho, canola, algodão, girassol. A vantagem tributária ao milho deixou a assimetria competitiva evidente.
— Nosso papel é subsidiar o Parlamento para que tome as decisões. Identificamos o problema concorrencial, mas será decisão do Congresso se trará os demais para a cesta básica. Estamos à disposição do Senado para fazer os cálculos sobre impactos na alíquota total — diz Rodrigo Orair, diretor de Programa da Secretaria Extraordinária da Reforma Tributária do Ministério da Fazenda.
Simulações feitas pelo Banco Mundial indicam que o impacto nesse caso seria residual. Ao zerar a alíquota de todos os óleos vegetais, o efeito seria de 0,01 ponto percentual — uma mudança, portanto, fiscalmente neutra, de acordo com o simulador da entidade.
A alíquota-base do futuro imposto sobre valor agregado (IVA), que na prática vai substituir cinco impostos sobre o consumo por dois, é estimada hoje em 28%.
O índice depende do volume de tratamentos especiais no texto final a ser definido pelo Congresso. Alterada no Senado, a proposta tem de voltar para a Câmara.
Mobilização em curso
Os produtores de óleo pretendem usar esse dado a seu favor. Estão pedindo aos principais empresários do setor em seus estados para acionarem senadores. Parlamentares de direita e de esquerda já aceitaram assinar emendas com sugestões de alterações ao texto.
O senador Cid Gomes (PSB-CE) diz em sua proposta que a “fixação de um tratamento tributário diferente, além de não possuir uma motivação técnica, certamente provocará um desequilíbrio entre os mercados”. Jorge Seif (PL-SC) argumenta que ampliar o número de óleos é uma forma de garantir a “segurança alimentar e nutricional da população.
A Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja) diz que é preciso preservar o produto produzido com o grão na cesta básica, mas não se opõe à inclusão de outros competidores na lista da alíquota zero. Os produtores de outros óleos, porém, se dizem desconfiados e projetam disputa intensa nas próximas semanas.
Fonte: O Globo
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