De Bacellar a Cabral, a teia de conexões do dono da cobertura de luxo em que Cláudio Castro foi morar
Enviado Segunda, 01 de Junho de 2026.Advogado que aparece como dono da cobertura onde ex-governador mora já foi próximo do ex-presidente da Alerj
O advogado José Mauro de Farias Junior, sócio de uma empresa que aparece formalmente como dona da cobertura onde mora o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL), esteve à frente de uma secretaria com orçamento de R$ 216 milhões na gestão estadual no mesmo ano em que adquiriu o imóvel. Mauro já foi próximo do ex-presidente da Assembleia Legislativa (Alerj) Rodrigo Bacellar, hoje preso sob acusação de envolvimento com facções criminosas. Seu irmão, Rafael Thompson de Farias, foi braço-direito de Bacellar no governo do Rio, após um histórico de relações com a família do ex-governador Sérgio Cabral, e atualmente ocupa cargo na prefeitura do Rio.
Como revelado pelo GLOBO, a cobertura foi comprada em junho de 2023 pela J3 Real Estate, empresa de Mauro. O valor da aquisição, de R$ 3,5 milhões, foi quitado à vista. Pouco depois, em setembro de 2023, uma firma de arquitetura apresentou o primeiro projeto da reforma, que só foi totalmente entregue em setembro de 2025. A defesa de Castro alega que o governador se mudou para o imóvel este ano, e que paga aluguel de cerca de R$ 10 mil.
Mauro se aproximou de Castro ao chefiar, entre julho de 2022 e dezembro de 2024, a Secretaria estadual de Transformação Digital. A pasta foi criada por Castro em 2022, às vésperas da campanha, período em que, segundo o Ministério Público Eleitoral, sua candidatura destinou R$ 2,6 milhões a um fornecedor que repassou os recursos a outra empresa ligada a Mauro Farias, a P5 Soluções.
O MP alegou que a transação expõe “malversação de gastos públicos” sem comprovação de serviços, mas a Justiça Eleitoral arquivou a denúncia.
No primeiro ano completo de existência, em 2023, a Secretaria de Transformação Digital empenhou — reservou para uso — R$ 216 milhões, dos quais R$ 80 milhões foram usados para investimentos, o que inclui compras e contratações de serviços. O valor supera o desembolsado em outras secretarias robustas, como as de Educação e de Polícia Civil, nessa finalidade.
No início de 2023, Mauro foi homenageado na Alerj com a medalha Tiradentes, a principal honraria do estado. A comenda foi entregue por Bacellar, que elogiou Mauro por seu “trabalho incansável em todas as funções que já desempenhou”.
Bacellar, então presidente da Alerj, empregava Rafael Thompson como seu chefe de gabinete. O irmão de Mauro tem um histórico mais antigo no governo do Rio: de 2009 a 2014, foi coordenador de eventos na Casa Civil da gestão Cabral, e depois foi subsecretário de Esportes na pasta chefiada por Marco Antônio Cabral, filho do ex-governador.
Thompson chegou a ser ouvido como testemunha pela Justiça Federal do Rio em uma denúncia da Lava-Jato, que apontou suspeitas de que recursos desviados do governo do Rio teriam abastecido a campanha de Marco Antônio a deputado federal em 2014. O chefe de Thompson na área de eventos da Casa Civil declarou ter recebido R$ 7,7 milhões em espécie para a campanha, mas alegou desconhecer se tinham origem ilícita.
Após a prisão de Cabral e a derrota de Marco Antônio quando tentou se reeleger em 2018, Thompson retornou ao Executivo pelas mãos de Bacellar, em 2021, quando se tornou o número 2 da Secretaria de Governo. Em 2022, Thompson virou o secretário.
A relação entre Bacellar e os irmãos Farias desandou em 2023. Thompson foi demitido por Bacellar em outubro daquele ano, e Mauro virou alvo de aliados do presidente da Alerj na chamada “CPI da Transparência”, que se debruçou sobre contratos da área digital do estado.
Depois, Thompson foi abrigado na capital pelo então prefeito Eduardo Paes, desafeto de Bacellar. Ele preside até hoje a Rioluz, órgão que costuma ser aproveitado por Paes para composições políticas.
Procurado, Thompson disse que “cada uma das nomeações se deveu a suas qualificações em gestão pública”, e que “nunca esteve presente em nenhuma obra de imóvel” do irmão. Mauro Farias afirmou em nota que “todos os convites para assumir cargos se deram por conta do seu perfil técnico”.
Fonte: O Globo
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