Efeito Ricardo Couto no RJ
Enviado Terça, 28 de Abril de 2026.Levantamento da Genial/Quaest mostra desconhecimento de Douglas Ruas (PL) entre eleitores diante de amplo favoritismo de Eduardo Paes (PSD)
A pesquisa de intenção de voto para governador do Rio de Janeiro divulgada nesta segunda-feira (27) pela Genial/Quaest demonstra de forma didática o impacto da gestão interina de Ricardo Couto à frente do estado na estratégia bolsonarista que culminou na renúncia de Cláudio Castro (PL) na véspera do julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que cassaria seu mandato de governador.
Com o estado sem linha sucessória — Castro estava sem vice desde 2025 e o então presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Rodrigo Bacellar (União Brasil), estava afastado por determinação da Justiça —, o plano do PL no estado era que Douglas Ruas (PL) fosse eleito presidente da Alerj e assumisse o governo estadual provisoriamente.
Com a caneta na mão, Ruas disputaria uma eleição indireta dentro da Casa e concorreria à reeleição em outubro já conhecido pela população, o que garantiria à sua candidatura a solidez necessária para disputar contra o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), que tem o recall de quatro mandatos à frente da capital e duas outras disputas pelo governo estadual.
A expectativa até então era de que a gestão interina de Couto, desembargador e presidente do Tribunal de Justiça, durasse poucos dias.
Mas ele se mantém no cargo há mais de um mês por força de uma liminar do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin, até que a Corte decida se a vacância provocada pela renúncia de Castro deve ser resolvida por meio de eleições diretas e indiretas. Na semana passada, Zanin corroborou a medida ao definir que a eleição de Ruas como presidente da Alerj não muda a decisão do Supremo.
O “efeito Ricardo Couto” se traduz nos números do levantamento da Genial/Quaest: 71% dos entrevistados responderam que não conhecem Douglas Ruas. Apenas 12% deles disseram conhecer o deputado e que votariam nele; outros 17% afirmaram conhecê-lo, mas que o bolsonarista não teria seu voto.
Já 48% dos entrevistados disseram conhecer Paes e que votariam no ex-prefeito. Apenas 12% responderam que não sabiam quem era o político do PSD. Outros 40% alegaram conhecê-lo e que não votariam nele – no geral, candidatos com alto índice de conhecimento costumam atrair também um nível maior de rejeição.
O desempenho de Ruas também contrasta com outro velho conhecido da política fluminense: o ex-governador Anthony Garotinho, que tem se colocado como pré-candidato pelo Republicanos. Apenas 16% dos entrevistados responderam não conhecê-lo. Outros 19% disseram que conhecem e votariam nele; esmagadores 65% afirmaram conhecer Garotinho e que não o apoiariam.
Um reflexo concreto do desconhecimento de Ruas entre os eleitores está nas intenções de voto. De acordo com a Genial/Quaest, se a eleição ocorresse hoje, Eduardo Paes seria eleito no primeiro turno. Em um dos cenários testados pelo instituto, o ex-prefeito marca 40% – descartados os votos brancos e nulos, que não são contabilizados, ele superaria a marca necessária de 50% + 1 para vencer já no dia 4 de outubro.
Na pesquisa espontânea, quando os entrevistados não são apresentados aos nomes dos pré-candidatos, Paes tem 8% – quatro vezes mais do que Douglas Ruas (2%). O ex-prefeito do Rio tem maioria entre eleitores de direita não bolsonaristas (33% contra 22%) e empata com o rival do PL entre apoiadores de Jair Bolsonaro (25%).
Na prática, os índices da pesquisa demonstram que o presidente da Alerj terá um longo caminho até outubro para se tornar mais conhecido pelo eleitorado do estado caso a liminar de Zanin prolongue o governo interino de Ricardo Couto até a eleição de outubro ou mesmo até a posse do próximo governador em 2027, o que tem sido articulado nos bastidores do STF.
No início do mês, o presidente do Supremo, Edson Fachin, disse a Couto durante uma cerimônia no TJ-RJ que ele tem a chancela da Corte para governar. Após a declaração pública, o governador passou a montar sua própria equipe e a exonerar indicados de Cláudio Castro, o que foi interpretado na política fluminense como um indicativo claro de que ele deve permanecer no cargo.
O PL de Ruas vem buscando no STF reverter a liminar para que ele seja empossado como governador. Mas, como o julgamento sobre o formato da eleição para substituir Castro está paralisado por um pedido de vista de Flávio Dino e outros ministros alinhados a Zanin, como Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes trabalham para manter Ricardo Couto no governo, não há expectativa de que isso aconteça tão cedo.
O “efeito Couto” também respinga na pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. O filho 01 de Jair Bolsonaro contava com um mandato-tampão de Douglas Ruas para assegurar um palanque forte no estado berço do bolsonarismo, já que Paes, favorito, apoiará a reeleição de Lula.
A estratégia foi originalmente desenhada para que Rodrigo Bacellar assumisse o governo do Rio e fosse ele o candidato à sucessão de Castro, mas acabou frustrada pela prisão do então presidente da Alerj em dezembro por suspeita de envolvimento com o Comando Vermelho. Deputado de primeiro mandato e filho do prefeito de São Gonçalo, terceiro maior colégio eleitoral do Rio, Ruas foi convocado para assumir a missão.
Diante do limbo político e jurídico, o PL tem exibido o presidente da Assembleia em inserções na televisão e no rádio. No roteiro tradicional das campanhas políticas, Ruas deverá se amparar nos debates e no apoio considerável do pré-candidato bolsonarista entre prefeitos do interior. Ex-secretário de Cidades no governo Castro, ele se aproximou dos gestores municipais com verbas e obras apoiadas pelo estado.
Resta saber se isso será suficiente para reverter o amplo favoritismo de Eduardo Paes até outubro, caso Ruas de fato não assuma o governo estadual e Ricardo Couto permaneça à frente do Palácio Guanabara até as eleições escorado na liminar do STF.
Fonte: O Globo - Coluna Malu Gaspar
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