Estados têm aumento dos investimentos e redução do caixa em 2025
Enviado Quarta, 15 de Abril de 2026.Dados sinalizam foco em eleição e deixam analistas em alerta ante elevação dos gastos
Em ano de véspera de eleição, os investimentos do conjunto dos 26 Estados e Distrito Federal (DF) atingiram R$ 119,75 bilhões em 2025, com alta real, acima da inflação, de 7,9% contra o ano anterior. Os investimentos aumentaram em 17 entes. Em 12 deles - Acre, Amapá, Ceará, Distrito Federal, Goiás, Paraíba, Pernambuco, Maranhão, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Sergipe -, a alta ficou acima de 10% e, dentro desse grupo, em seis a taxa ultrapassou 30%. Os dados agregados mostram, porém, que o avanço dos investimentos foi acompanhado por maior comprometimento da receita com despesas correntes e redução de saldo disponível em caixa.
Os gastos correntes avançaram de 92,8% da receita corrente em 2024 para 94,2% em 2025. O cálculo inclui despesa com amortização de dívida. A disponibilidade de caixa em igual período caiu de R$ 53,99 bilhões para R$ 29,41 bilhões. O indicador segue tendência de queda desde 2023. Em 2022 atingiu o recorde do período mais recente, com R$ 91,71 bilhões.
Para 2026, segundo analistas e representantes de Fazendas estaduais ouvidos pelo Valor, a expectativa é que os investimentos continuem em nível relativamente alto, embora nem todos os Estados tenham perspectiva de aumento em relação ao ano passado. Para especialistas, o cenário é de atenção e mostra necessidade de rediscutir as relações federativas entre União e governos subnacionais, além de aperfeiçoar os mecanismos de controle das contas de Estados e municípios. O contexto global da guerra no Oriente Médio pode trazer receitas adicionais a uma parte dos Estados mais beneficiados por royalties e participações especiais do petróleo, mas também já traz gastos novos no curto prazo, em meio à esperada desaceleração da economia neste ano.
Em valores absolutos, São Paulo segue na liderança dos investimentos, seguido de Minas Gerais e Bahia. O governo paulista investiu em 2025 total de R$ 17,03 bilhões, com queda de 12,3% contra 2024. Se somado às inversões financeiras, o valor sobe para R$ 28,04 bilhões e o sinal da variação se inverte, com alta real de 8,4%.
Os dados, retirados dos relatórios resumidos de execução orçamentária pela Aequus Consultoria Econômica, consideraram os gastos empenhados e as receitas realizadas, com atualização até dezembro de 2025 pelo IPCA. A disponibilidade de caixa foi calculada com base no valor líquido, após restos a pagar não processados.
Alberto Borges, economista e sócio da Aequus, chama a atenção para o aumento dos investimentos nos três primeiros anos do atual mandato - 2023 a 2025 - ante igual período do ciclo político anterior - 2019 a 2021. Nos três primeiros anos de gestão dos atuais governadores, os investimentos somaram R$ 333,39 bilhões, 71,9% reais a mais que os R$ 193,94 bilhões de igual momento do ciclo anterior. Ele lembra que nesse cálculo fica de fora 2022, último ano do mandato anterior, quando os investimentos alcançaram R$ 131,89 bilhões, volume ainda recorde no conjunto dos Estados e Distrito Federal.
O crescimento dos investimentos, lembra Borges, foi possibilitado por uma série de fatores que favoreceram no período as contas dos governos regionais. Entre eles, os repasses extraordinários no período da pandemia, as regulações que limitaram o crescimento da despesa de pessoal em 2020 e 2021, além de aumentos de preços que ajudaram na arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e engordaram as transferências obrigatórias da União aos subnacionais.
Os dados dos relatórios também mostram que as receitas correntes cresceram 2,6% reais em 2025 contra o ano anterior, mas as despesas correntes subiram a taxa maior, de 4%.
O quadro agregado, diz o economista Gabriel Leal de Barros, da ARX Investimentos, mostra que parte dos Estados está queimando caixa e isso deve continuar em 2026, já que os governos encerraram 2025 com saldo ainda disponível. Apesar de a situação ser heterogênea entre os Estados, o quadro acende uma luz amarela, diz.
“Sabemos que ainda que sejam importantes e tenham justificativa, os investimentos são seguidos por gastos correntes. Como o lastro desse aumento de investimento tem muito de receita temporária ou de operação de crédito, fica uma preocupação de como é que o custeio após o investimento será feito. Porque esse custeio vai se somar a toda a pressão de despesa obrigatória que conhecemos e que não melhorou”, avalia Barros.
Pelo levantamento da Aequus, as receitas de operação de crédito dos Estados e DF alcançaram R$ 31,69 bilhões em 2025, com alta real de 43,3% ante 2024. Trata-se do maior volume de recursos pelo menos desde 2018.
Borges, da Aequus, diz que o conjunto de dados mostra a necessidade de novos parâmetros de controle para os Estados. “Não há na nossa legislação nada que controle o conjunto das despesas correntes dos Estados”, diz. Ele destaca que a despesa de pessoal em relação à receita corrente líquida, indicador estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), não é mais suficiente para isso. A despesa de pessoal dos Estados em 2025, observa, subiu 2,5%. O aumento maior, porém, vem por outros canais, como as “outras despesas correntes”, que aumentaram 6,2%. A alta dessa rubrica não foi algo pontual em 2025, lembra. O levantamento da consultoria mostra que de 2018 ao ano passado as outras despesas correntes avançaram de 40% para 41,9% da despesa corrente. A despesa com pessoal é ainda a mais representativa, mas nesse mesmo período ela caiu em termos relativos, de 56,4% para 55,2% da despesa corrente.
O quadro atual leva à necessidade de debate sobre a condução das contas dos governos regionais em 2027, ao lado da discussão de desenho fiscal que também precisa ser feita no âmbito federal, diz Barros, da ARX. “Hoje há um risco moral muito grande na relação federativa e as ações do governo federal para tentar minimizar isso na verdade estão aprofundando o desequilíbrio fiscal subnacional. O Propag não resolve”, diz, citando o programa oferecido pela União aos Estados, para renegociação da dívida. Por esse programa, conforme a forma de adesão dos Estados, o juro real a ser pago pelos governos estaduais pode cair a zero. “O Propag cria uma pressão de despesa corrente ainda maior com contrapartidas muito frágeis em caso de não cumprimento.”
Sarah Tarsila Andreozzi, secretária de Fazenda de Sergipe, explica que o crescimento dos investimentos do Estado refletem a maturação dos projetos no decorrer do mandato. “Investimento tem um multiplicador na economia, que gera emprego e renda. É uma forma de sair do quadro de baixa infraestrutura do Estado, porque isso resulta em pouca atração de investimentos e pouca empregabilidade.”
Em 2025 Sergipe foi o segundo Estado no ranking dos que mais aumentaram os investimentos ante 2024, segundo os dados da Aequus. Com alta real de 62,8%, a taxa de aumento do investimento sergipano só ficou atrás do de Goiás, que avançou 80,2% em igual período. Seguindo os dois Estados vieram Maranhão, Amapá e Pernambuco, com altas de 59%, 43,7% e 39,7%, nessa ordem.
Segundo Andreozzi, o Estado espera este ano superar o R$ 1,33 bilhão em investimentos de 2025, já recorde do governo sergipano. “Os investimentos estão sendo feitos com responsabilidade fiscal”, diz. Ela cita que o Estado mantém Capag A, além de avaliação de crédito AAA da agência Fitch. A Capag é uma espécie de nota de crédito da Secretaria do Tesouro Nacional.
A secretária diz que desde o fim do ano passado o Estado já vem sentindo a desaceleração da economia no ICMS, mas as obras contratadas deverão ser mantidas. Além de recursos de outorga da concessão parcial no saneamento, diz, há recursos de operações de crédito que no ano passado financiaram cerca de 30% dos investimentos. Em 2026, a fatia deve avançar para 50%, declara.
No Paraná, o secretário de Fazenda, Norberto Ortigara, diz que o nível de investimento recorde em 2025 veio ao lado de medidas para tentar conter o custeio. Em valores corrigidos até dezembro do ano passado, foram R$ 7,3 bilhões empenhados. O secretário diz esperar um novo pico histórico em 2026.
“No orçamento temos mais de R$ 7 bilhões alocados, mas temos também superávits de anos anteriores. Estamos em ritmo maluco, diria”, declara Ortigara. Há obras, cita, de pavimentação urbana nos municípios e também de estradas rurais. Ele destaca que, com base em convênio do Conselho Nacional de Política Fazendária, o Estado deu isenção de ICMS para o cimento, desde que aplicado na construção de rodovias em concreto. Além de pavimentação, a cesta de investimentos paranaenses também inclui obras de infraestrutura viária de maneira mais ampla, como rodovias, além de segurança pública e educação, entre outros.
Além de recorde em valor absoluto, no Espírito Santo os investimentos em 2025 também alcançaram 20% como proporção da receita total, também pico histórico, segundo o secretário de Fazenda do Estado, Benício Costa. Foram R$ 5,26 bilhões em investimentos, com alta real de 9,7% ante 2024.
Para 2026, diz, a previsão é manter os investimentos em torno do nível do ano passado. Segundo ele, o calendário eleitoral traz restrições que limitam os investimentos. “O Estado investiu muito no ano passado. É preciso lembrar que há investimentos que geram custeio e temos que controlar isso também”, diz. Costa ressalta que os investimentos capixabas são predominantemente financiados com recursos próprios e que o Estado vem mantendo nos últimos anos baixo nível de endividamento e alto índice de poupança. Segundo os dados da Aequus, dentre todos os entes, o Espírito Santo fechou 2025 com o menor nível de comprometimento de receita corrente com despesa corrente e amortização. O índice de comprometimento capixaba foi de 82,4%, seguido por 83,7% do Maranhão e 84,2% de Mato Grosso.
Fonte: Valor Econômico
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