Justiça do Rio anula sessão que elegeu Ruas para Alerj

Enviado Sexta, 27 de Março de 2026.

Desembargadora entendeu que Legislativo fluminense só pode realizar eleições após recontagem de votos do pleito de 2022

O processo sucessório do Estado do Rio teve uma nova reviravolta com a suspensão da sessão relâmpago que elegeu o deputado estadual Douglas Ruas (PL) para a presidência da Assembleia Legislativa do Rio na quinta-feira (26). A decisão da presidente em exercício do Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ), desembargadora Suely Lopes Magalhães, foi tomada poucas horas após a controversa votação que elegeu Ruas por 45 votos a zero, e atendeu a um pedido da oposição. Ruas, que é ex-secretário estadual de Cidades e pré-candidato ao governo do Estado, foi notificado no início da noite de ontem.

A magistrada determinou a suspensão de todos os atos e decisões da sessão por entender que o processo eleitoral na Alerj só poderia ser realizado após a recontagem dos votos para deputado estadual no pleito de 2022. A medida, chamada de retotalização, foi determinada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na mesma decisão que cassou o mandato do ex-governador Cláudio Castro (PL) e do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar (União) nesta semana.

A desembargadora ressaltou que a realização do processo eleitoral sem o cumprimento integral da decisão do TSE interfere não só na escolha do novo presidente da Alerj, como na definição de quem vai assumir o governo do Estado.

Ao ser eleito para o comando do Legislativo fluminense, Ruas se tornou o primeiro nome na linha sucessória e, portanto, passou a ser considerado apto a assumir interinamente o governo do Estado, no lugar do presidente do TJ-RJ, Ricardo Couto, até a realização da eleição para o mandato-tampão, prevista para 22 ou 23 de abril.

“A cronologia lógica a ser observada no cumprimento da decisão da Justiça Eleitoral é inequívoca: primeiro retotalizar os votos, para assegurar a legitimidade da composição da Casa Legislativa e, assim, a higidez do colégio eleitoral e do próprio sufrágio interno que se avizinha; e só então deflagrar o processo eleitoral”, escreveu a magistrada na decisão.

A sessão desta quinta foi conduzida sob críticas da oposição e questionamentos judiciais. A decisão da magistrada se deu no âmbito de um mandado de segurança impetrado pelo PDT. O PSD, do ex-prefeito e pré-candidato ao governo Eduardo Paes, também entrou com pedido de liminar na Justiça. “Não podemos aceitar uma manobra que atropela o regimento interno, ignora prazos e desconsidera a necessária retotalização dos votos após a cassação de um parlamentar”, disse a deputada Martha Rocha (PDT). “É preciso respeitar as regras do jogo democrático.”

A votação na Alerj durou cerca de trinta minutos e foi encerrada sob aplausos e gritos de “golpista”. Ruas foi o único inscrito para concorrer ao comando da Casa. Para os parlamentares da oposição, a convocação “açodada” não respeitou o prazo mínimo entre o chamado e a realização da sessão previsto no regimento interno.

“Essa é uma eleição que visa não só a Alerj, mas o controle do poder Executivo, sem que houvesse tempo pra que outras candidaturas se apresentassem”, criticou o deputado Luiz Paulo da Rocha (PSD).

Como forma de protesto, parlamentares de partidos de centro-esquerda (PT, PCdoB PSOL, MDB, PSD, PSB, PDT) não participaram. O movimento, no entanto, não teve efeito, uma vez que Ruas alcançou mais do que 36 dos 70 votos necessários.

O deputado Chico Machado (Solidariedade) que era apontado como possível concorrente retirou a candidatura alegando descumprimento ao regimento interno. Após a leitura do resultado, Ruas ressaltou o momento de “excepcionalidade” do Estado. Ele também pregou soberania do Legislativo. “Independente de ideologia partidária ou posicionamento político, todos os parlamentares terão o diálogo aberto, respeitando o parlamento, sabendo que o plenário é soberano”, disse. Procurado, ele não se pronunciou sobre a decisão da Justiça.

O presidente interino da Alerj, Guilherme Delaroli (PL), afirmou ao Valor que fará uma nova eleição na terça (31) ou quarta-feira (1º) assim que o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) fizer a recontagem dos votos. A sessão da Corte está marcada para terça. Vencida essa etapa, o deputado disse que dará posse aos novos parlamentares e, na sequência, convocará o novo pleito para o comando do Parlamento estadual.

Na decisão que cassou a chapa de Castro e Bacellar, no início da semana, o TSE também determinou a exclusão dos votos recebidos por Bacellar e a retotalização. O procedimento recalcula a distribuição das vagas com base nos votos válidos restantes. Isso acontece porque os votos para deputado são proporcionais, e não pertencem à pessoa que foi eleita, mas sim à legenda.

Nos bastidores, a convocação às pressas foi vista como uma manobra do PL para realizar a eleição antes da recontagem.

A Alerj está sem presidente titular desde dezembro, quando Bacellar foi preso pela Polícia Federal, a mando do Supremo Tribunal Federal (STF), suspeito de vazar informações para o deputado TH Joias.

Na semana seguinte à prisão, o plenário da Alerj votou para soltar Bacellar, mas o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou o afastamento do deputado da presidência da Casa. Bacellar pediu sucessivas licenças do mandato, e Guilherme Delaroli, seu vice, assumiu o posto. Pelas regras do legislativo, no entanto, o vice só pode ocupar o cargo interinamente.

O comando do Executivo foi assumido pelo presidente do TJ-RJ, Ricardo Couto, após Castro renunciar, na segunda-feira (23), para evitar ser cassado no cargo. O vice eleito, Thiago Pampolha, já havia renunciado no ano passado para assumir um cargo no Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ). Na quarta-feira (25), o TSE confirmou que a sucessão no governo do Rio de Janeiro será definida por eleição indireta.

Fonte: Valor Econômico