Rioprevidência terá ainda mais dificuldade para cobrir prejuízo após liquidação do Banco Pleno
Enviado Sexta, 06 de Março de 2026.Fundo do Estado do Rio estava retendo repasses do consignado dos servidores graças à decisão judicial, em estratégia vista com ressalvas por especialistas. Mas carteira do CredCesta foi herdada pelo Pleno
A liquidação extrajudicial do Banco Pleno pelo Banco Central, no mês passado, criou um obstáculo na estratégia adotada pelo Rioprevidência para tentar recuperar ao menos parte dos valores perdidos com a crise do Master. O fundo que paga as aposentadorias e pensões de 235 mil servidores fluminenses investiu R$ 970 milhões em Letras Financeiras (LFs) da instituição do agora ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que teve a prisão novamente decretada na quarta-feira.
Esses títulos não têm garantia, ou seja, abrem um rombo no patrimônio da entidade. O Pleno fez parte do grupo Master, mas foi vendido no segundo semestre do ano passado a Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. Entre os ativos herdados, o Pleno tinha o Credcesta, um cartão de crédito consignado destinado a servidores públicos e empresas privadas.
Em dezembro de 2025, a 2ª Vara da Fazenda Pública do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ) autorizou, em caráter cautelar, que o Estado do Rio retivesse os valores que seriam repassados ao Credcesta referentes a parcelas de empréstimos consignados descontados em folha no pagamento de servidores, aposentados e pensionistas fluminenses.
A decisão previa que os valores fossem depositados em conta judicial e servissem de "garantia especial à restituição ou compensação dos valores investidos pelo Rioprevidência ou à eventual responsabilização dos réus pelo inadimplemento dos créditos" no Master.
Em reunião no dia 12 de fevereiro com representantes de servidores, o presidente interino do Rioprevidência, Nicholas Cardoso, afirmou que, desde a decisão, o instituto conseguiu reter R$ 80 milhões descontados dos pagamentos dos servidores e que seriam repassados ao Pleno.
Fontes próximas ao fundo detalham que, do total, R$ 50 milhões foram retidos ainda em dezembro. O Credcesta, porém, teria interrompido a contratação das operações consignadas e o fluxo dos valores movimentados caiu, com R$ 30 milhões retidos em janeiro.
Agora, há preocupação dada a liquidação extrajudicial do Pleno pelo BC. Isso porque o advogado José Eduardo Victória, nomeado pela autoridade monetária como liquidante do Pleno, pode pedir a suspensão do bloqueio dos repasses para a gestão da liquidação da instituição financeira.
O GLOBO perguntou ao Rioprevidência quais medidas serão implementadas para tentar recuperar o valor investido no Master com a recente liquidação do Pleno. Em nota, o fundo afirmou apenas que "medidas relativas à retenção de repasses de consignações estão sendo conduzidas no âmbito judicial, em articulação com os órgãos competentes, para resguardar o interesse público e preservar créditos".
Estratégia prevista, ainda que fora do contrato
O uso de recursos ligados a operações de crédito consignado de servidores ativos e inativos do Rio como "garantia" para cobrir eventuais prejuízos dos investimentos no Master já era previsto pelo comando do Rioprevidência.
O assunto foi abordado pelo ex-diretor de investimentos do Rioprevidência Euchério Lerner Rodrigues durante audiência sobre os aportes no Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ) em abril do ano passado.
Segundo ele, o plano não estava previsto em contrato, mas era cogitado pela administração do fundo em caso de perdas, provavelmente via Justiça.
"Isso dá ao Rioprevidência uma receita de R$ 20 milhões por mês. Calculamos que, no caso extremo de default (calote) total dos títulos do Master, em 23 meses, se usássemos o fluxo do consignado, ressarciríamos o valor do caixa. Então, o Master, por causa do consignado, era mais interessante para o Rioprevidência do que toda a concorrência", justificou Rodrigues, à época, no TCE.
Cenário semelhante no Amapá, onde o instituto de previdência dos servidores estaduais aplicou R$ 400 milhões nas LFs do Master, montante que representa 4% do patrimônio do fundo.
Em dezembro, o Amprev, dos servidores do Amapá, também conseguiu na Justiça a autorização para reter valores de operações consignadas que seriam repassadas ao Master em virtude de empréstimos consignados de servidores.
Segundo a entidade, não há como precisar o montante retido até o momento, mas que os valores estão sendo retidos e depositados em conta específica no Banco do Brasil, mediante decisão da Justiça.
"Ainda não é possível apresentar um valor consolidado, considerando que os contratos de empréstimos consignados envolvem servidores da ativa e aposentados, e foram firmados em prazos de até 120 meses. A estimativa do Governo do Estado é que os valores possam retornar integralmente à Amprev no período entre quatro e cinco anos, conforme o fluxo das retenções mensais determinadas judicialmente", afirmou o Amprev em nota.
'Medida desesperada', diz especialista
Na avaliação de Cleveland Prates, professor da FGV Direito SP, a estratégia adotada pelo Rioprevidência e pelo Amprev é "uma medida desesperada", já que não há garantia de que os recursos retidos em conta judicial sejam de fato repassados para cobrir o rombo deixado pelos aportes no Master.
— Não é nem cobrir o rombo, mas segurar valores até segunda ordem. A Justiça pode dar uma decisão dessas, mas há no processo de liquidação, judicial ou extrajudicial, uma ordem de prioridades na fila dos credores — observa. — Ao mesmo tempo que esses bancos (Master e Pleno) têm um passivo descoberto, também têm como ativo o crédito que forneceram, que precisa ser pago e que é considerado pelo liquidante na hora de pagar a quem é de direito.
Fonte: O Globo
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