Chapa de Paes com Reis se divide
Enviado Sexta, 20 de Fevereiro de 2026.Mesmo se aliando ao prefeito, que estará com petista em outubro, Washington Reis diz que fará campanha para Flávio
Anunciada ontem, a chapa para a eleição do Rio composta por Eduardo Paes (PSD) e Jane Reis (MDB), irmã do ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis, faz com que a aliança represente ao mesmo tempo as candidaturas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência. Após o evento que consolidou a parceria, o presidente estadual do MDB confirmou que pedirá votos para o filho de Jair Bolsonaro (PL), a despeito do prefeito do Rio, que estará no palanque do petista.
— Ali no evento não era importante tratar de presidencial, e sim de governador, mas vou fazer (campanha para o Flávio) — disse Washington.
A própria Jane foi uma entusiasmada apoiadora de Bolsonaro na eleição de 2022. No dia em que o então presidente fez um comício em Duque de Caxias durante o segundo turno, tendo a família Reis como anfitriã, ela compartilhou diversas fotos e vídeos.
Na solenidade que marcou o anúncio do apoio do partido a Paes, o prefeito deixou claro que pretende evitar a nacionalização do jogo. Interessa a ele, num estado refratário ao petismo, beber de diferentes fontes da disputa nacional.
— O que fazemos aqui hoje é juntar um grupo de pessoas que não pensa tudo igual, que pensa diferente. Que tem escolhas nacionais distintas, às vezes escolhas locais distintas, mas que entende que política é a arte de juntar gente — disse Paes na sede do MDB. — Nosso país aqui é o Rio de Janeiro, e é disso que vamos tratar nos próximos meses.
Segundo o prefeito, o presidente Lula foi comunicado sobre a aliança e demonstrou apoio “integral”.
Operação da PF
A vinculação entre os Reis e os Bolsonaro virou alvo da Polícia Federal após Duque de Caxias ter sido palco da suposta falsificação no cartão de vacinas do ex-presidente. Até pouco tempo atrás, Washington era o favorito de Bolsonaro para representar a direita na eleição do Rio. Havia, no entanto, um imbróglio jurídico: o cacique emedebista está inelegível por causa de uma condenação por crime ambiental que ele tenta reverter no Supremo Tribunal Federal.
Quando percebeu, na semana passada, que a situação na Corte era quase impossível, Reis recebeu o prefeito do Rio e aliados para um almoço. Ficou selada ali a aliança, vista como estratégica por dois motivos: o fator regional, já que a capital e Caxias são os dois maiores colégios eleitorais do Rio, e o religioso, dada a relação entre os Reis e igrejas evangélicas.
Ter a máquina de Caxias ganha especial importância na esteira da dificuldade que Paes poderá enfrentar em outro município de tamanho parecido, São Gonçalo, que é governado pelo PL. Filho do prefeito Capitão Nelson, o secretário estadual de Cidades, Douglas Ruas, é um dos cotados para disputar contra o carioca em outubro.
Escolhida para a vice, Jane é advogada e atua em projetos sociais na Baixada Fluminense, além de manter interlocução com igrejas. A família Reis tem ainda um deputado federal (Gutemberg), um estadual (Rosenverg) e o atual prefeito de Caxias, Netinho. O nome de Rosenverg chegou a ser colocado como opção de vice, mas Paes manifestou preferência por uma mulher.
O anúncio de apoio a Paes contou com a presença de figuras nacionais do MDB, como o presidente Baleia Rossi e o ministro das Cidades, Jader Filho. Também compareceram dirigentes e representantes de partidos no estado, entre eles o PT, além do vice-prefeito Eduardo Cavaliere (PSD), que assumirá a capital no dia 20 de março.
O principal eixo do discurso de Paes foi a crítica dura ao governo de Cláudio Castro (PL).
— As pessoas começaram, no Rio, a confundir política com associação para outros fins — alegou o prefeito. — Essas outras forças também vão estar unidas. Como falta (a eles) política, mas outros motivos o motivam, eles vão estar unidos para tentar manter o poder no Estado do Rio.
Reis foi demitido da secretaria de Transportes do governo Castro pelo então interino Rodrigo Bacellar (União), que era presidente da Assembleia Legislativa e estava na cadeira durante uma viagem do governador. Castro não reverteu a exoneração. O dirigente do MDB se mantinha pré-candidato ao governo mesmo quando Bacellar — que depois foi preso e afastado do cargo — tinha sido definido como o representante eleitoral do grupo do governador.
Outro momento de fala incisiva de Paes se deu ao analisar a segurança pública.
— Ninguém vai ficar de bravata nas eleições, todo mundo lembra do bravateiro das eleições de 2018 (Wilson Witzel) que falava em “tiro na cabecinha”. Mas, aos delinquentes e marginais do estado: saibam que a cumplicidade que o estado tem hoje com vocês vai acabar a partir de janeiro de 2027.
Com a chegada do MDB, o pré-candidato a governador atrai o primeiro partido de centro de porte robusto. Até então, contava apenas com siglas mais à esquerda, como PT, PSB e PDT, e legendas menores. Paes vinha tentando o PP, partido que só governa menos prefeituras que o PL no estado, mas o fato de o União Brasil ter no Rio o comando da federação a ser formada pelos dois partidos dificulta as conversas.
Um dos representantes do PT no evento, o vice-presidente nacional do partido e prefeito de Maricá, Washington Quaquá, “convocou” mais legendas para a aliança de Paes:
— É importante que esse país distensione. Nessa sala apertada cabe muito mais gente, o muro está baixo.
Em 2014, o Rio vivenciou uma situação eleitoral parecida, embora menos acentuada do que promete ser a de agora. Oficialmente coligado com a então presidente Dilma Rousseff (PT), o MDB do governador Luiz Fernando Pezão criou a dissidência “Aezão”, que pregava apoio ao tucano Aécio Neves. Francisco Dornelles (PP), que viraria vice-governador, participou do ato inaugural de apoio ao presidenciável, enquanto Pezão seguiu ao lado de Dilma.
Fonte: O Globo
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