Flávio fora da disputa ao Senado no Rio
Enviado Segunda, 08 de Dezembro de 2025.Filho de Bolsonaro tem reeleição considerada tranquila. Sem ele na corrida, as duas vagas à Casa ficam mais concorridas
O anúncio da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mexeu com o desenho da disputa ao Senado no Rio, em 2026. Sem o parlamentar, que teria uma reeleição considerada tranquila, a corrida para as duas vagas à Casa alta fica mais aberta - dando margem não só para a direita lançar novos postulantes, como também anima o centro e a esquerda.
O próprio PL já trabalha com outros nomes para concorrer pela cadeira de Flávio. É o caso do senador Carlos Portinho, cuja candidatura vinha sendo preterida, e dos deputados federais Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy.
“O PL do Rio aplaude a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. O partido tem excelentes quadros para a disputa em 2026”, afirmou ao Valor o presidente do PL carioca, Bruno Bonetti.
Flávio anunciou que representará nas urnas o legado o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, na sexta-feira (5). Nem 48 horas depois, no domingo (7), no entanto, admitiu que pode não levar o projeto até o fim: “Eu tenho um preço para isso. Eu vou negociar”, disse, indicando que esse “preço” seria a aprovação da anistia para os condenados por tentativa de golpe de Estado, o que livraria seu pai da prisão.
Se desistir, Flávio volta a ser o nome forte do PL para o Senado. A prioridade de Bolsonaro é eleger o máximo de senadores para formar maioria na Casa - e, assim, fazer frente ao Supremo Tribunal Federal (STF), visto como inimigo “número 1” por bolsonaristas. Para isso, membros e dirigentes do PL querem nomes ao Senado que não tenham “rabo preso” com a Corte.
“Não ter rabo preso é não se curvar às pressões do STF por conta de processos. O Supremo atua coagindo os congressistas. Precisamos de pessoas no Senado comprometidas com a volta da normalidade democrática e com a defesa da liberdade de expressão”, diz Jordy, conhecido por ser um “bolsonarista raiz”.
Em paralelo, ainda dentro do PL, a segunda vaga no Senado deve ser disputada pelo governador Cláudio Castro, que teve um aumento súbito de popularidade após a megaoperação policial de outubro. Antes, com aprovação em baixa, ele vinha dizendo a aliados que não iria disputar nenhum cargo e buscava um acordo que lhe garantisse uma indicação ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ).
Para Castro ser candidato, no entanto, ele precisará deixar a sucessão ao Palácio Guanabara minimamente organizada, conforme avaliam lideranças políticas fluminenses. O cenário, atualmente, é bastante complexo.
O presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Rodrigo Bacellar (União Brasil), foi preso na semana passada por suspeita de ter informado ao ex-deputado Thiego Santos, o TH Joias, de que ele seria preso em setembro por envolvimento com o Comando Vermelho.
Ex-aliado de Castro, Bacellar era o primeiro na linha sucessória do governo, já que não há mais vice - quem ocupava essa cadeira era Thiago Pampolha (MDB), que foi para o TCE-RJ.
A prisão do mandachuva do Legislativo, num primeiro momento, pode até parecer favorável aos planos de Castro para 2026, pois, segundo interlocutores, Bacellar é “a única pedra” no caminho do governador. Mas o caso também elevou a tensão, uma vez que Castro é citado na operação da Polícia Federal que prendeu o deputado.
Diante desse cenário, fontes do governo apontam uma solução para acalmar os ânimos e, ao mesmo tempo, pavimentar um caminho mais tranquilo para Castro em termos de sucessão: articular para que o escolhido ao mandato-tampão que surgirá com a vacância do Executivo seja um nome menos político e mais técnico e que não se “assanhe” em concorrer à eleição em outubro.
Com a saída de Castro para disputar o Senado, quem estiver sentado na cadeira de presidente da Alerj deverá convocar eleições indiretas, por faltar menos de dois anos para o próximo pleito. Quem escolherá o governador para uma gestão de poucos meses, até janeiro de 2026, serão os deputados estaduais, e qualquer político, com ou sem mandato, pode ser escolhido.
Castro já tem um favorito para isso: o secretário da Casa Civil, Nicola Miccione. Chefe da principal pasta do governo, a ideia de articular a eleição de Miccione já era discutida por Castro desde antes da prisão de Bacellar. Depois, essa possibilidade ganhou mais força.
A escolha de Miccione também serve de aceno ao prefeito do Rio e pré-candidato ao governo, Eduardo Paes (PSD), segundo fontes do Estado e da prefeitura. Isso porque o secretário não é visto como risco às intenções eleitorais de Paes. Pelo contrário, Miccione mantém “a casa em ordem” até uma eventual vitória do prefeito, afirma um aliado.
Castro tem interesse em manter Paes ao seu lado por dois motivos. Primeiro, pela expectativa de poder do prefeito, apontado como favorito nas pesquisas eleitorais. Segundo, que o governador quer tentar desde um pacto de não agressão com Paes a uma possível dobradinha nas disputas majoritárias ao Executivo estadual e ao Senado - o pano de fundo desse pensamento é que, em geral, eleitores definem seus senadores com base em quem eles votam ao governo. Uma aliança mais direta entre Castro e Paes, mesmo que seja como um palanque extraoficial, ficou mais possível pela chance de as duas vagas ao Senado estarem agora em disputa.
'Ventos favoráveis' a Pedro Paulo
A ideia de que eleição à Casa alta se define junto com o governo também anima o entorno de Paes. Segundo aliados, está cada vez mais forte a possibilidade de o deputado federal e presidente do PSD fluminense, Pedro Paulo, se lançar a senador. Inicialmente, o grupo de Paes queria usar a vaga de candidato ao Senado na chapa para atrair mais apoio ao seu arco de alianças. Mas, nas palavras de um interlocutor, “os ventos estão favoráveis” ao prefeito e a Pedro Paulo. Lançar o deputado ao Senado também ajuda Paes a se afastar da esquerda para evitar perder os votos que tem da direita e da centro-direita.
No campo político do presidente Lula (PT), ter as duas vagas ao Senado mais soltas também é positivo, já que partidos desse polo ainda não chegaram a um consenso - tanto entre eles quanto internamente. No PT, uma ala defende a candidatura da deputada federal Benedita da Silva; ela afirma que só participará da eleição se for para a Casa alta. Mas a direção petista no Rio, liderada por Diego Zeidan, prefere indicar alguém mais próximo de seu grupo político.
No PSB, o ex-deputado Alessandro Molon também planeja tentar mais uma vez o Senado. Em 2022, com a esquerda dividida, ele ficou em segundo lugar na disputa, com 1,7 milhão de votos. O porém é que o ex-parlamentar enfrenta resistências pelas críticas à ADPF das Favelas, de autoria do seu partido. Mas o entorno de Molon já trabalha numa vacina: usar como argumento que foi a ADPF que possibilitou a prisão de Bacellar, ao definir que a PF conduziria às investigações envolvendo o crime organizado e suas conexões políticas.
Fonte: Valor Econômico
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