Com queda no Sudeste, Nordeste passa a liderar investimento estadual
Enviado Quarta, 26 de Novembro de 2025.Governos regionais nordestinos ficam com o equivalente a 34% do agregado de todos os Estados e DF de janeiro a agosto deste ano
O Nordeste ultrapassou o Sudeste e ficou com a maior fatia nos investimentos agregados dos Estados e Distrito Federal, de janeiro a agosto deste ano. Os investimentos dos governos estaduais no período cresceram em termos reais em quatro das cinco regiões do país, mas no Sudeste a queda real, já descontada a inflação, ultrapassou 30% na comparação com o mesmo período de 2024.
Com isso, a fatia do Sudeste nos investimentos agregados dos governos estaduais e Distrito Federal diminuiu mais de 10 pontos percentuais (p.p.), de 34,5% de janeiro a agosto de 2024 para 23,9% em iguais meses deste ano. Em contrapartida, no agregado do Nordeste houve avanço de 30% para 34,2%.
Considerando os últimos oito anos, de janeiro a agosto, o Nordeste já ficou com a maior parte dos investimentos em 2018 e 2019, com 33,3% e 35%, respectivamente. Mas com uma diferença menor em relação ao Sudeste: 5,3 p.p. e 1,9 p.p., nessa ordem.
O quadro dos investimentos estaduais é heterogêneo, mas com alta real na maior parte deles. Dos 26 Estados e Distrito Federal, em 16 os investimentos cresceram este ano até agosto, sendo que em 11 a taxas reais acima de 20%. Mesmo assim, o investimento agregado dos 27 caiu 1,3% em termos reais, devido à queda do Sudeste.
Os investimentos dos governos do Sudeste somaram R$ 11,1 bilhões de janeiro a agosto deste ano, com retração de 31,7% sobre o mesmo período de 2024. Três dos quatro Estados da região tiveram queda real: São Paulo (55,9%), Minas Gerais (8,1%) e Espírito Santo (11,9%). A exceção, o Rio de Janeiro, teve alta de apenas 2,9%, a menor taxa dentre todos os Estados que aumentaram os investimentos nesses oito meses.
Nas demais regiões, o maior crescimento ocorreu no Sul, com 31,8%. Mas, como a alta se deu sobre base menor, a fatia da região avançou de 10,1% em 2024 para 13,5% em 2025 no agregado. Os investimentos estaduais no Centro-Oeste subiram 17,7% e passaram de 13,5% para 16,1% do total na mesma comparação. Nos Estados do Nordeste o investimento cresceu 12,5%, e nos do Norte, 2,8%.
Os dados de investimentos estão corrigidos pelo IPCA a valores de outubro e foram levantados pela Aequus Consultoria, com base nos relatórios resumidos de execução orçamentária enviados à Secretaria do Tesouro Nacional (STN). Foram consideradas os investimentos liquidados.
Alberto Borges, economista e sócio da Aequus, diz que no Sudeste e principalmente em São Paulo, dado o dinamismo econômico, com grande industrialização, o efeito da atividade sobre a arrecadação própria é mais rápido em relação aos demais Estados, “para cima ou para baixo”. “Na retomada, é o primeiro que arrecada, na queda, o primeiro que perde.”
Os dados mostram que a receita própria tributária dos Estados desacelerou este ano. No agregado, cresceu 2,2% de janeiro a agosto deste ano contra iguais meses do ano passado. No Sudeste subiu em ritmo menor, de 1,6%, e em São Paulo a taxa foi ainda baixa, 0,75%. Em 2024 o aumento de janeiro a agosto havia sido de 6,9%.
Quando trata de investimentos, o governo de São Paulo soma também as inversões financeiras. Nesse cálculo, o valor investido de janeiro a agosto, somando as duas contas, foi de R$ 9,02 bilhões, com queda de 24,2% contra iguais meses de 2024. As inversões financeiras do Estado aumentaram 51,7% no período mas, menos representativas, não anularam totalmente a queda no total dos investimentos.
Procurado, o governo paulista diz, em nota, que o Estado tem adotado um “novo paradigma” nos investimentos, com ampliação das parcerias público-privadas, o que explica o aumento nas inversões financeiras. Esse movimento tem contribuído, diz, para um maior volume de investimentos anunciados no Estado.
A nota diz que o arrefecimento econômico do país tem impacto direto na arrecadação tributária e no fôlego financeiro dos Estados. O governo salienta que projetos estruturantes em curso, como obras do túnel Santos-Guarujá, devem trazer “aumento significativo do patamar de investimentos” do Estado.
Apesar de uma arrecadação que “anda de lado”, destaca Borges, parte dos Estados deve ter ainda fôlego para elevar investimentos. A disponibilidade caixa total dos governos estaduais no fim do ano passado, lembra, ainda era relativamente alta, de R$ 162,7 bilhões, em valores atualizados até outubro. “Além disso, a receita de operações de crédito dos Estados tem crescido muito. Os investimentos, no agregado, podem subir até meados de 2026, ano de eleições.” As receitas de empréstimos, mostra o levantamento, atingiram R$ 21,3 bilhões de janeiro a agosto de 2025, com alta real de 55,8% ante iguais meses de 2024.
Em Sergipe, as operações de crédito devem garantir fôlego para continuidade dos investimentos, diz a secretária de Fazenda do Estado, Sarah Tarsila Araújo Andreozzi. “Temos receitas de operações de crédito e muitas operações contratadas, ainda em liberação.” Os investimentos do governo sergipano somaram R$ 522, 04 milhões de janeiro a agosto, com alta de 61,2% ante mesmos meses de 2024.
A secretária explica que a arrecadação própria do Estado tem desacelerado. A receita em Sergipe de ICMS, principal tributo recolhido pelo governos estaduais, alcançou alta de 10% reais no decorrer do primeiro trimestre, mas desacelerou para taxa em torno de 4% nos três meses seguintes. De julho a setembro a arrecadação com o imposto chegou a ter variações negativas reais em alguns meses, na comparação com 2024. Em outubro, conta Andreozzi, quando se esperava uma alta, já sob a influência das vendas de fim de ano, houve praticamente estabilidade, com alta real de apenas 0,1% ante igual mês do ano passado.
Para o ano que vem, diz, se espera uma estabilização da arrecadação, o que pode levar a contenção de despesas, mas há tranquilidade em relação às condições fiscais para honrar os compromissos. O Estado, diz Andreozzi, se preparou para o aumento de investimentos em curso. “Houve uma estratégia baseada na percepção de necessidade de fortalecer a infraestrutura do Estado”, diz. Em 2023 iniciou-se a elaboração de projetos e o Estado aproveitou o baixo nível de endividamento e a melhora da nota da Capag para acessar operações de crédito, explica. A Capag é uma espécie de nota de crédito da Secretaria do Tesouro Nacional. O Estado, diz Andreozzi, migrou gradativamente da nota D para a A no decorrer dos últimos dez anos.
Na Paraíba, as reservas de superávits financeiros acumulados desde 2019 devem ajudar o Estado a manter investimentos no ano que vem, diz Marialvo Laureano, secretário da Fazenda paraibana. Os investimentos do Estado de janeiro a agosto somaram R$ 1,32 bilhão, com alta de 40,8% contra iguais meses de 2024. Segundo o secretário, o nível de investimento do Estado, que correspondia a 6% da Receita Corrente Líquida (RCL) em 2019, subiu para 13% em 2024 e deve terminar 2025 em 15%. O secretário avalia que em 2026 esse nível de investimento em relação à RCL será mantido e que a arrecadação de ICMS pode ter crescimento nominal entre 8% a 10%.
No Sul, o governo gaúcho investiu de janeiro a agosto total de R$ 1,06 bilhão, com alta de 130% ante iguais meses do ano passado, a maior taxa dentre as 27 unidades federativas. Segundo Danielle Calazans, secretária de Planejamento, Governança e Gestão do Rio Grande do Sul, a previsão é que o Estado encerre 2025 com R$ 2,59 bilhões em investimento liquidado. Em 2024 foi R$ 1,6 bilhão.
Entre as fontes de financiamento, parte importante - total de R$ 1,23 bilhão, quase metade do que deve ser liquidado neste ano - é financiada pelo Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs).
Após a tragédia das enchentes no ano passado, o governo federal suspendeu o pagamento da dívida do Estado até abril de 2027. Em troca, o compromisso foi de que os recursos economizados fossem direcionados à reconstrução do Estado, via Funrigs. Recursos do Tesouro estadual, vinculados e também os resultantes da privatização, explica Calazans, também têm contribuído para a sustentação dos investimentos em nível mais alto. Para 2026, diz a secretária, o Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa) do Estado prevê total de R$ 5,53 bilhões em investimentos empenhados, sendo R$ 3,58 bilhões com recursos do Funrigs.
Fonte: Valor Econômico
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