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Covid deixa cicatrizes duradouras na economia

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Pandemia pode alongar perdas do país na alocação de recursos, produtividade e capacidade de crescer, dizem economistas.

A pandemia deixou marcas na economia brasileira que devem se estender pelos próximos anos e levar a desdobramentos que pesarão sobre o produto potencial do país. Mais do que aprofundar a crise pela qual o Brasil passava antes da covid-19, a pandemia pode ter prejudicado em caráter mais duradouro a alocação de recursos, a produtividade e a capacidade de crescimento, dizem economistas.

Diferentemente do que se temia no início da crise sanitária, as cicatrizes não se dão tanto no sentido de perda de capital, com fechamento de empresas, mas no que diz respeito à recuperação do emprego e às perdas de aprendizado com escolas interditadas.

“Não houve fechamento de muitos negócios, como se temia, o que levaria à destruição do estoque de capital e a uma retomada mais lenta no pós-pandemia. Isso foi evitado, as empresas mostraram capacidade de resiliência tremenda e medidas de liquidez ajudaram a atravessar isso sem muitos danos estruturais”, diz Alberto Ramos, economista do Goldman Sachs. “Mas vamos sair da pandemia extremamente endividados, tanto o governo quanto as famílias, o que levará a um crescimento com debilidade pela frente.”

Ramos acrescenta cicatrizes no mercado de trabalho, que vinha sofrendo desde a crise de 2014. “Houve contração de proporções bíblicas no mercado de trabalho, que já mostrava ociosidade. Há uma franja de desemprego de longa duração expressiva, com pessoas sem trabalho há anos, o que deve pesar sobre o crescimento.”

Os efeitos cicatrizes da pandemia sobre o Brasil tendem a ser mais suaves do que sobre os outros países latino-americanos, em parte pelos estímulos fiscais do governo que apoiaram a recuperação, afirma William Jackson, da Capital Economics. “No entanto, o fechamento de escolas durante a pandemia talvez afete os níveis de produtividade no futuro”, afirma. “Além disso, há chances de nos próximos cinco ou dez anos serem adotadas políticas que reduzem artificialmente os custos de empréstimos do governo, como obrigar bancos a comprar mais títulos do Banco Central. Isso poderia ter efeitos distorcivos sobre a produtividade, aumentando a inflação e dificultando empréstimos ao setor privado.”

A pandemia pode resultar ainda em cenários duradouros como excedente de poupança das famílias, menor investimento e rearranjo das cadeias produtivas, na busca por menor dependência da China.

“O que vale para os outros países vale para o Brasil”, afirma José Júlio Senna, economista do Instituto de Economia Brasileira, da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

Segundo Senna, enquanto o choque da covid deixou marcas como endividamento de empresas e famílias e perda de capital humano, a incerteza que se instaurou com a pandemia resultou em excedente de poupança das famílias e vem segurando decisões de investimentos por parte das empresas.

Por fim, as dificuldades na compra de equipamentos médicos no auge da pandemia e os atuais gargalos nas cadeias produtivas acenderam um alerta em produtores do mundo todo, que estudam reduzir a dependência em relação à China.

“São efeitos de mais longo prazo, que podem influir na trajetória do crescimento potencial do país. Quanto mais essas trajetórias foram afetadas por consequências da pandemia em caráter mais permanente, mais essas podem ser consideradas cicatrizes”, argumenta Senna.

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