SINDICATO DOS AUDITORES FISCAIS DA RECEITA ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO

ÁREA RESTRITA

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O estado do governador

É compreensível o abatimento emocional em que se encontra o governador Sergio Cabral devido ao desastre aéreo que causou a morte de alguns amigos, inclusive da namorada de um filho seu. Talvez seja um dos momentos mais delicados de sua vida afetiva e profissional, em que se misturam questões sentimentais de foro íntimo, como crise conjugal, e razões de estado, como as circunstâncias que envolveram o trágico episódio. O trauma sofrido foi tão forte que pode ter tirado dele um pouco do gosto pelo poder e o apetite de governar — o que se espera ser uma indisposição psicológica passageira que não venha a prejudicar o seu importante projeto de pacificação do Rio de Janeiro.

Só mesmo o fato de a vida privada de um homem público ser também pública sob vários aspectos autoriza invadir um território que é particular e reservado, mas onde cabem, além de uma sincera solidariedade, críticas a um incidente repleto de erros políticos e inconveniências morais — a começar pela decisão da insensata viagem num avião pedido emprestado a um empresário para uma festa de aniversário de um outro no Sul da Bahia. O detalhe é que ambos mantêm com o governo relações altamente comprometedoras. O primeiro foi doador da campanha eleitoral de Cabral e é copatrocinador de alguns de seus programas, beneficiando-se de incentivos fiscais que chegam a quase R$80 milhões. O segundo é um poderoso empreiteiro que só na gestão peemedebista foi contemplado com contratos de cerca de R$1 bilhão, alguns sem licitação.

Não se entende que não tenha aparecido alguém de bom senso no entorno do governador para desaconselhar a viagem, ou mesmo tentar impedi-la, e nem para, depois, advertir que um vôo de helicóptero Esquilo naquelas condições meteorológicas era quase um suicídio. Por que arriscar a vida num trajeto de 10 minutos que podia ser feito de carro levando um pouco mais de tempo? (uma resposta possível é que em certas camadas da sociedade parece que se perdeu o hábito de usar automóvel, mesmo quando não há pressa). Por último, como se explica que a assessoria do governador tenha distribuído a falsa informação de que ele teria se dirigido ao local para acompanhar as buscas, quando na verdade ele já se encontrava lá na sexta-feira, dia da tragédia — e por pouco não foi uma das vítimas?

Com todo respeito ao seu estado de ânimo e com a torcida pela continuidade de sua política de segurança, não se pode deixar de cobrar respostas a essas perguntas. Ainda que Sergio Cabral não tenha cometido ilícitos tipificados em lei, houve no incidente um grave conflito de interesses público e privado e uma incompatibilidade ética que afetam seriamente a imagem de seu governo.

O GLOBO - ZUENIR VENTURA - 29/06/2011

 

 

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