SINDICATO DOS AUDITORES FISCAIS DA RECEITA ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO

ÁREA RESTRITA

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Não desperdice seu voto

Quase 3 000 candidatos disputam sua preferência ao Senado Federal, à Câmara dos Deputados e à Assembleia Legislativa. Embora sejam escolhas cruciais para o futuro do estado e do país, nem sempre elas são feitas com o cuidado necessário. Conheça o desempenho e a história de alguns desses postulantes e aprenda o que se deve levar em conta na hora da decisão

Dentro de duas semanas, os 11,5 milhões de eleitores fluminenses comparecerão às 30 918 urnas eletrônicas do estado do Rio de Janeiro para escolher seus representantes — presidente, governador, dois senadores, deputado federal e estadual. Trata-se de uma decisão complicada, em razão do enorme leque de opções e do impacto que terá pelos próximos anos. Em tempos de marquetagem política, não é nada fácil saber o que os candidatos realmente defendem e quem eles são. Para o eleitor cuidadoso, o processo costuma ser menos penoso em relação aos cargos executivos, como presidente e governador. Os debates na televisão, a exposição mais prolongada no horário político e a própria cobertura dos veículos de comunicação acabam ajudando a população a conhecer melhor os postulantes. Quando o assunto diz respeito ao Poder Legislativo, a situação se complica. Neste ano, aqui no Rio, há onze pretendentes ao Senado, 928 à Câmara dos Deputados e 1 848 à Assembleia Legislativa. A maioria deles, completamente desconhecida. “Existe uma ideia de que só os votos para presidente e governador são importantes”, diz o cientista político Ricardo Ismael, professor de sociologia da PUC-Rio. “As outras opções costumam ser feitas praticamente na boca da urna. É um erro.”

Nas próximas 16 páginas, VEJA RIO publica um levantamento cujo objetivo é justamente auxiliar na compreensão das tarefas dos parlamentares e na identificação dos que podem representar melhor seus interesses e convicções. São três reportagens em série, uma para cada esfera da disputa legislativa. A primeira traz o perfil dos quatro principais candidatos a senador, suas convicções em relação a catorze temas polêmicos e as fichas dos demais concorrentes. As outras duas são análises do desempenho das nossas bancadas federal e estadual, a partir de alguns critérios que precisam ser avaliados na hora da votação. Além da elaboração de leis que afetam diretamente a vida das pessoas, o Senado Federal tem algumas atribuições exclusivas. Uma delas é funcionar como uma espécie de guardião das práticas de todos os outros poderes, podendo processar e julgar o presidente da República, o vice-presidente, os ministros do governo e os ministros do Supremo Tribunal Federal. Apesar da importância, uma pesquisa recente feita pelo instituto Datafolha revelou que 10% dos eleitores do Rio não haviam escolhido seus candidatos ao Senado e 20% escolheram apenas um deles. A razão para tal indefinição é compreensível. Nos últimos anos, intensificou-se a associação entre parlamentares e condutas pouco éticas — e não faltam exemplos para comprovar esse sentimento. Tal panorama só pode ser mudado a partir do momento em que os cidadãos fluminenses deixarem o desinteresse de lado e selecionarem seus representantes de forma responsável.

Poder Legislativo: Senadores

Um olho na Bíblia e outro na urna
O senador Marcelo Crivella adotou um mantra que repete para si mesmo enquanto pede votos para sua reeleição: “Quem pensa nos outros pensa como Deus”. A frase, cunhada pelo bispo Edir Macedo, seu tio e fundador da Igreja Universal, uma potência entre as vertentes evangélicas neopentecostais, parece estar funcionando. Cantor gospel e bispo licenciado, ele está em primeiro lugar na preferência dos eleitores fluminenses, com 40% das intenções de voto. Aparentemente tranquila, a situação mascara certa apreensão. O candidato vem de três derrotas sucessivas — à prefeitura do Rio, em 2004 e 2008, e ao governo do estado, em 2006. Na eleição mais recente, chegou a acumular um índice de rejeição de 35% às vésperas da votação, mais que o dobro do de seu principal rival, o atual prefeito, Eduardo Paes (PMDB). “Nas disputas anteriores, eu me sacrifiquei a pedido do partido. Eles achavam que time que não joga não faz torcida. Perdi, mas consegui muitos votos e me aproximei, com as alianças, do presidente Lula”, avalia Crivella. “Tenho certeza de que agora o povo vai me escolher.”
Em suas pregações políticas, costuma desfiar um discurso para lá de eclético: evoca da fé em Cristo aos ideais da Revolução Francesa. “Liberdade, igualdade e fraternidade. Isso é, para mim, um estado de espírito. Acredito nesses princípios”, filosofa. Boa parte da resistência que provoca em uma parcela do eleitorado vem de posições defendidas pela Universal, que, entre outras coisas, condena o homossexualismo e ataca abertamente outras religiões, a exemplo do espiritismo (compare as posições dos principais postulantes ao Senado na pág. 26). Tanto que atualmente tem procurado não valorizar as causas evangélicas na campanha. Com uma estrutura pequena e arrecadação de apenas 600 000 reais, aposta na imagem de “parlamentar do bem”, tendo como base sua performance no Senado. Quase 80% de suas proposições foram consideradas de conteúdo relevante pela ONG Transparência Brasil.

O retorno do cara-pintada
Com uma estratégia agressiva na internet, que incluía o uso do Twitter e de um blog, o prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias, lançou no fim do ano passado sua candidatura ao governo do estado. Os ataques à atual administração enfureceram Sérgio Cabral, postulante à reeleição. Depois de uma intervenção do presidente Lula, a cizânia acabou contornada. Lindberg (ou “Lindinho”, como é conhecido entre amigos) desistiu do confronto regional e se lançou ao Senado. “Saí de uma disputa complicada e agora estou numa situação favorável”, diz ele. De fato, está. Impulsionado pelo apoio federal em sua propaganda, saltou para o segundo lugar na corrida, 4 pontos porcentuais atrás de Marcelo Crivella (40% a 36%), segundo pesquisa do Datafolha divulgada no domingo passado (12).
Sua campanha, assim como a da maioria dos concorrentes, não é muito específica. No horário eleitoral, ele fala genericamente na criação de políticas públicas de apoio aos jovens e na conquista de verbas para o reordenamento urbano da região metropolitana do Rio. O Senado será o passo mais ambicioso da trajetória de Lindberg. Paraibano, 40 anos, ele ficou conhecido em 1992 ao participar do movimento cara-pintada que pedia a derrubada de Fernando Collor da Presidência da República. Foi eleito deputado federal dois anos depois, mas teve uma passagem apagada por Brasília. Em 2001, filiou-se ao PT. Ele costuma dizer que é fiel ao ideário de esquerda e que adora os filmes de Ken Loach, diretor britânico que retrata as classes operárias. Em 2005, elegeu-se prefeito de Nova Iguaçu, onde suas marcas foram construções em profusão dentro do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e uma série de denúncias sobre a suspeita de fraude em licitação e favorecimentos. “Sofri perseguição política”, defende-se Lindberg, casado e pai de dois filhos, que iniciou, mas não concluiu, as faculdades de medicina e direito.

Em busca de redenção
Protagonista da política carioca nas últimas duas décadas, com três mandatos de prefeito e um quarto à sombra do seu ex-secretário Luiz Paulo Conde, Cesar Maia quer recuperar a antiga influência. Aos 65 anos, o prefeito do Rio de Janeiro que mais tempo ficou no cargo planeja tornar-se uma liderança nacional. Caso conquiste uma das vagas em jogo, ele pretende fortalecer no Senado o debate sobre diplomacia, segurança pública e saúde, além de revisar o sistema tributário. A candidatura, que aparece em terceiro lugar nas pesquisas, com 29% das intenções de voto, será mais uma metamorfose em sua biografia. Adepto de primeira hora do brizolismo, esse economista nascido em Copacabana e criado na Tijuca iniciou sua vida pública como secretário estadual de Fazenda, em 1983. Depois de duas passagens pela Câmara dos Deputados, conquistou a prefeitura.
Ali, experimentou o sucesso midiático no primeiro governo, com uma gestão marcada pelos projetos Rio-Cidade e Favela Bairro, pela construção da Linha Amarela e pela criação de seus famosos factoides. Sua imagem mudou, para pior, no terceiro mandato (2004-2008), quando o “síndico” deu lugar ao administrador enfurnado no gabinete e conectado à internet. A concentração de recursos em obras faraônicas, como a Cidade da Música e as instalações para o Pan-2007, fez despencar sua popularidade. “As críticas foram factualmente justas, mas estrategicamente equivocadas”, diz, no estilo empolado que o consagrou. “A organização do Pan possibilitou ao Rio sediar a Olimpíada. Quer legado mais importante?”

O amigo do governador
Às 8 horas da manhã do último dia 10, o deputado estadual Jorge Picciani tomava seu café da manhã no restaurante Pérgula, no Copacabana Palace. Enquanto comia alguns pedaços de manga, pediu ao garçom dois ovos fritos. O desjejum reforçado prenunciava mais um dia duro de busca por votos. Picciani corre para conseguir uma das duas vagas de senador pelo Rio. Em todas as pesquisas feitas até agora, não avançou além do quarto lugar, com cerca de 22% das intenções de voto. Sinal de que a ajuda do governador Sérgio Cabral, seu grande aliado, ainda não foi suficiente para catapultá-lo. A ligação entre os dois é antiga. Desde 1994, eles comandam a Assembleia Legislativa do Estado (Alerj). Quando Cabral era presidente da casa, Picciani trabalhava como primeiro secretário. Depois que Cabral se elegeu senador, em 2002, a coroa ficou para o aliado. Apesar da posição desconfortável nos levantamentos, Picciani segue confiante. “Serei eleito senador e chegarei à frente dos meus colegas”, diz. “Paciência e perseverança. Esse é o meu lema.”
Aos 55 anos, vinte deles em cargos eletivos, Picciani já tem um recorde: é o homem mais rico da política fluminense. Ex-fiscal de renda da Receita Federal, tem um patrimônio declarado de 11,2 milhões de reais e é um dos maiores criadores de gado do Brasil. Há sete anos, uma de suas fazendas de Mato Grosso foi alvo de uma batida do Ministério Público do Trabalho, que flagrou 39 trabalhadores em condições análogas à escravidão. O deputado alegou desconhecer o crime, assinou um acordo e pagou uma multa de 250 000 reais. Na Alerj, com seu estilo conciliatório, sempre se empenhou em defender os interesses do governo do estado. Agora, na campanha para o Senado, promete basicamente lutar pelos royalties do petróleo e trazer investimentos federais para o Rio de Janeiro.

21/09/2010

 

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