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Marina deixa PV sem projeto político claro

Ex-senadora critica partidos, prega nova forma de fazer política, mas reconhece não ter fórmula para isso

Em um discurso com críticas ao sistema político brasileiro, a ex-senadora Marina Silva colocou fim ontem a quatro meses de disputas internas e anunciou a sua saída do PV, partido pelo qual disputou a Presidência da República no ano passado e obteve 19,6 milhões de votos. No evento marcado para o anúncio, Marina destacou que as práticas que encontrou no PV são comuns a todos os partidos brasileiros:
- A experiência no PV serviu para sentir até que ponto o sistema político brasileiro está empedernido e sem capacidade de abrir-se para sua própria renovação.

Para ressaltar o caráter democrático do evento organizado por seus seguidores, Marina só falou mais de uma hora e meia depois de chegar. Antes dela, discursaram empresários, como o seu candidato a vice, o sócio da Natura, Guilherme Leal, e religiosos, como a pastora Vanilce Milhones, da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo.
- Não é o fim, é o início - afirmou Marina, ao começar sua fala sobre o processo que a levou a deixar o partido.

A ex-senadora disse que pretende liderar um movimento que discuta "uma nova forma de fazer política", mas admitiu não ter uma fórmula para isso. Citou como referência os movimentos de jovens da Espanha, que ocuparam praças para pedir participação na política, e as manifestações pela democracia no Egito.
A ex-senadora, Leal e outros políticos que estão se afastando do PV sentaram-se no meio do público e discursaram a partir dali. A ideia era que o evento marcasse diferença também no formato. Na decoração, em vez das faixas verdes, o turquesa, que simboliza a biosfera. O deputado federal Alfredo Sirkis (RJ) estava presente, mas não vai sair.

Na tentativa de explicar a raiz do movimento, Marina chegou até a criar uma nova palavra:
- Não é hora de ser pragmático, é hora de ser "sonhático" e de agir pelos nossos sonhos - afirmou.
A ex-senadora e seus aliados cobravam a realização de eleições internas na legenda, que tem José Luiz Penna (SP) na presidência há 12 anos.
Mas o principal alvo do discurso de Marina foi o fisiologismo dos partidos.

- A proposta de desenvolvimento sustentável é inseparável de uma política sustentável. Não podemos falar das conquistas de nosso país separando?as da baixa credibilidade do sistema político, dos desvios éticos tornados corriqueiros, da perplexidade da população diante da transformação dos partidos em máquinas obcecadas pelo poder em si - disse a ex-senadora.

Marina fez uma referência indireta ao escândalo do Ministério dos Transportes:
- Não podemos negar a tristeza pelo que está acontecendo na política, no sistema político e nas instituições brasileiras. É só vermos os casos que estão aí falando por si mesmos.
Depois, em entrevista, voltou a citar o caso ao afirmar que espera que a presidente Dilma Rousseff, "mesmo com as dificuldades que tem, consiga resistir a todas as armadilhas do aprisionamento, do fisiologismo que querem impor a qualquer governo que ali chegue".

Garantiu ainda que ajudará Dilma a "ter força" para vetar a reforma do Código Florestal.
Marina tentou convencer os presentes que o movimento que está sendo criado não tem fins eleitorais, apesar de Sirkis ter falado na criação de um partido político após a eleição de 2012.
- Não sou candidata a priori (a presidente em 2014), não vou ficar na cadeira cativa de candidata. Eu não sei. Se não sei, não posso dizer que sou. E se não sei, não posso dizer que não sou.
O PV divulgou uma nota assinada por sua Executiva Nacional em que afirma que a legenda vive a sua primeira grave crise, mas que sairá fortalecida do processo.

O comunicado relembra que o PV aceitou uma série de condições para ter Marina. Cita que a legenda defende a legalização do aborto e do casamento gay, e, para não contrariar a ex-senadora, aprovou a cláusula de consciência que permite a filiados manifestarem, por questões religiosas, discordâncias de itens do programa partidário.

O texto se compromete ainda a atender algumas da reivindicações feitas pelo grupo de Marina, como abertura para novas filiações e a reformulação do estatuto da legenda.
Perguntada sobre o documento do PV, Marina preferiu passar a palavra para Sirkis.
- Não há nenhuma palavra sobre a realização de uma convenção para a escolha de uma nova direção. Considero estarrecedor - disse Sirkis.
 

08/07/2011

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