SINDICATO DOS AUDITORES FISCAIS DA RECEITA ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO

ÁREA RESTRITA

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Só um milagre de Natal

Muitas idas ao banco, olhadelas nervosas nas mensagens nos grupos de WhatsApp, momentos de angústia. Esta quarta-feira foi assim para servidores estaduais. Na expectativa de pôr as mãos, enfim, no salário de outubro e no 13º do ano passado, muitos já acordaram de olho na conta bancária para saber se o dinheiro tinha sido depositado, como anunciara o governo.

Mas a quarta-feira foi longa. Só depois de muitas informações desencontradas, por volta das 20h, os depósitos começaram a ser feitos, deixando no ar um clima de alívio, mas também de preocupação já que, às vésperas do Natal, boa parte dos valores seria destinada ao pagamento de dívidas.

Pela manhã, o desespero veio com a notícia de que uma liminar do Tribunal Regional do Trabalho impedia a liberação do empréstimo de R$ 2,9 bilhões do banco BNP Paribas, em que o governo deu ações da Cedae como contragarantia. O financiamento vem sendo negociado há meses para acertar os salários. O Palácio Guanabara começou uma corrida contra o tempo para derrubar a decisão judicial, o que só aconteceu à tarde. O dinheiro, então, foi transferido para as contas do estado e, depois, iniciado o pagamento dos servidores.

Enquanto o governador Luiz Fernando Pezão anunciava que o pagamento estava suspenso devido à liminar num evento em São Gonçalo, um grupo de mais ou menos 50 servidores se reunia em frente ao Palácio Guanabara à espera uma reunião com o chefe do Executivo, que havia sido cancelada. A indignação, que já era grande, ficou ainda maior. A enfermeira aposentada Maristela Farias, de 56 anos, foi ao protesto, apesar de ter o mais importante compromisso do ano à noite: a formatura de sua filha caçula, que concluiu o ensino médio no Colégio Estadual Chico Anysio. Depois de dois natais sem um único presente, ela pediu um cartão de crédito emprestado para dar à jovem um macacão e um par de sandálias para que ela usasse na colação de grau. Por causa da cerimônia, Maristela, que antes das 15h já tinha ido duas vezes checar se o dinheiro tinha caído na conta, não voltou ao banco.

— O 13º vai todo para pagar dívidas. Quando ele entrar, a gente vai continuar a dever. É uma situação deprimente — lamentou a aposentada.

Maristela já faz planos para a ceia de Natal. Planos de austeridade. O peru dará lugar ao frango, e o cardápio será “o que tiver no armário e na geladeira”. Será mais um ano sem presentes:

— Nossa ceia vai ser sem peru, sem chester. Será um franguinho, mais adequado para nossas limitações financeiras.

Maristela mora com duas filhas, uma de 19 e outra de 33 anos, o neto de 4 anos e o marido num apartamento de dois quartos no Riachuelo, na Zona Norte. A caçula já propôs largar a escola, de tempo integral, para ajudar na renda da família, o que foi descartado pela mãe. A mais velha, desempregada, vende bolos para ajudar nas despesas e custear parte do tratamento do filho, que tem bronquite. Por causa dos atrasos dos salários de Maristela e do marido, que tem dois empregos — um deles de professor de história da Faetec, fundação do estado —, a família cortou telefone fixo e internet e não liga mais ar-condicionado.

‘Nossa ceia vai ser sem peru, sem chester. Será um franguinho, que é mais acessível para os limites financeiros que a gente tem’

— Não dá para fazer planos. Você não pode mais acreditar no governo, no que eles dizem — diz ela.

Aposentada do Centro de Tecnologia da Informação e Comunicação do Estado do Rio, Moema do Carmo, de 54 anos, já havia tomado dois calmantes às 17h desta quarta-feira, à espera dos salários atrasados. Hipertensa, ela chorou ao falar do destino que daria ao dinheiro:

— Vou pagar contas. Não vai sobrar nada. Estou no Serasa, no SPC. Parei de comprar material para fazer meus chocolates caseiros porque bloquearam meus cartões. E, com o dinheiro, não vai dar para eu pagar tudo. Vou tentar negociar os juros do cartão de crédito — contou Moema, que faz doces para complementar a renda.

Assim como Maristela, Moema não vai comprar presentes. Com medo de novos atrasos de salário em 2018, ela disse que vai tentar evitar as dívidas:

— Se eu passar o Natal com meu nome limpo e as contas pagas, estarei em paz. Não quero acordar às 7h com as pessoas me cobrando. Se eu não tivesse um filho que me ajudasse financeiramente, estaria na rua pedindo esmola.

À noite, veio o alívio para o subtenente do Corpo de Bombeiros Mesac Eflain, que correu para um caixa eletrônico e viu o dinheiro na conta. Mas ele diz que não ter motivos para comemorar.

— A ceia de Natal vai ser enxuta. A prioridade é pagar as dívidas, recuperar nosso nome e nossa dignidade — afirma Eflain, que é presidente da Associação de Bombeiros Militares do Estado do Rio.

Apesar do atraso de um ano, o valor do 13º não foi corrigido. Por isso, Eflain está mobilizando sua categoria para entrar na Justiça. Ele estima que, apenas com a inflação do período, cada servidor ainda tem a receber cerca de 10% do salário.

Flávia Busnardo, técnica em educação à distância da Secretaria estadual de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Social, disse que seu Natal será um simples jantar em família. Mãe de uma menina de 2 anos, depende do salário para pagar seu aluguel:

— Não temos expectativa de ter uma ceia farta porque a situação está bem complicada. Sou mãe solteira e pago aluguel. Nem presente para a minha filha pude comprar.

Colega de Flávia, Judith Melo vai passar o Natal trabalhando para pagar contas:

— Vou passar o Natal fazendo salgadinhos. Estou vivendo de bico. Sempre fui a pessoa que ajudava todo mundo, dava aquele presente legal no fim do ano. Na minha casa, não vai ter festa. Não tenho o que comemorar.

Bruna Werneck, servidora da Fundação Centro de Ciências e Educação Superior à Distância do Estado do Rio de Janeiro (Cecierj) e integrante do Movimento Unificado dos Servidores Públicos do Estado do Rio (Muspe), diz que se sente “morando de favor” dentro da própria casa, porque seu marido acaba assumindo todas as contas.

— Não vai ter árvore de Natal, não vai ter presente — desabafou.

21/12/2017

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