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Recuperação lenta da indústria é ameaçada por alta de preços de insumos

A indústria comemora a recuperação do faturamento após o baque provocado pela crise do coronavírus, com as vendas em agosto retomando o patamar pré-pandemia, de fevereiro, segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI). No entanto, uma série de fatores ameaça a reação.

O setor vem sofrendo com forte pressão de custos em razão do aumento dos preços de matérias-primas e a desarticulação de cadeias produtivas, sem poder reajustar preços ao consumidor no cenário de alto desemprego e renda em queda. Além disso, incertezas em relação a medidas de incentivo e à agenda de reformas do governo cercam de dúvidas o crescimento da indústria nos próximos meses.

Em agosto, as vendas da indústria subiram 2,3% em relação a julho e 3,6% na comparação com o mesmo mês do ano passado. O faturamento acumula alta de 37,8% entre abril e agosto, mas nem mesmo essa forte reação após o pior momento da pandemia foi suficiente para recuperar tudo o que foi perdido.

Entre janeiro e agosto deste ano, a indústria acumula perda de 3,9% nas vendas em relação ao mesmo período do ano passado.

A CNI destacou que, em agosto, o emprego industrial registrou alta pela primeira vez este ano, , de 1,9%, ficando pouco abaixo do patamar pré-pandemia. O uso de capacidade das empresas ficou em 78,1%.

O aumento nas vendas experimentado pela indústria agora não é linear — entre julho e junho a alta foi maior, de 7,4% — e não deve permanecer, avalia José Ricardo Roriz Coelho, à frente da Abiplast, associação que reúne a indústria do plástico. Ele alerta para dificuldades à frente:

— No início da pandemia, houve uma ruptura na cadeia produtiva e também de logística internacional, o que leva tempo para reorganizar. Isso também explica a alta da demanda para recompor estoques. A matéria-prima encareceu e não dá para repassar esse custo ao preço final. Voltaremos à situação , só que com empresas, famílias e governo mais endividados.

Entre os principais motivos para a alta nos preços de insumos está a desvalorização do real perante o dólar e o maior consumo de commodities pela China. Em agosto, a produção industrial cresceu 3,2% sobre julho, quando a alta tinha sido de 8,3%, segundo o IBGE.

Ainda assim, a indústria segue 2,6% abaixo do nível de produção anterior à pandemia.

A acomodação dessas taxas é explicada por um cenário de demanda ainda fraca, em que a produção sofre o efeito dos protocolos de segurança sanitária, sem esquecer da dificuldade com insumos e “incertezas elevadas” com a continuidade de programas emergenciais, diz o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

Rafael Cagnin, economista do Iedi, pontua que o efeito positivo nos números provocado pela base fraca de comparação — em razão do tombo registrado pela indústria em abril — está ficando menor. A tendência é que os indicadores daqui para frente espelhem o desempenho real do setor.

E isso acende um alerta, destaca ele, porque há obstáculos a serem vencidos até haver reativação conjuntural da indústria:

— Existe o receio de voltarmos a um baixo dinamismo. Não dá mais para andarmos de lado. E esta desaceleração (dos índices) veio antes mesmo da redução do auxílio emergencial — diz ele, referindo-se à tendência de redução do consumo com o fim do benefício em dezembro. — Há também desequilíbrios desta recuperação num ambiente ainda de pandemia, que faz com que faltem insumos ao longo da cadeia.

Segmentos como o de vestuário e calçados se mostram mais receosos. A Abvtex, que representa grandes varejistas de moda, cita a alta do algodão em até 40% nos últimos meses e o esforço para evitar aumento na ponta:

— A indústria está tentando evitar o repasse, mas não significa que ele não virá. Com a redução do auxílio emergencial, vamos enxergar a real demanda no país, casando a alta dos alimentos e o orçamento apertado — diz Edmundo Lima, diretor da entidade.

No comando da fábrica Plastlab há 30 anos em Madureira, na Zona Norte do Rio, o empresário Marcelo Oazen se equilibra entre o aumento dos pedidos de plásticos e derivados por hospitais e comércio e os gargalos na oferta mundial de PVC, por conta da pandemia.

O aumento do uso da resina no mundo, segundo ele, dificulta o crescimento a longo prazo das indústrias de transformadores de plásticos:

— O PVC está sendo bastante utilizado durante a pandemia. Com isso, começou a faltar matéria-prima, e o custo foi potencializado. Está muito difícil conseguir material. Tivemos aumento de 32% no valor do PVC em agosto. Não tenho como repassar tudo isso aos clientes, mas estou repassando 4,5% do valor a eles.

O gargalo na produção tem, em paralelo, um efeito positivo nesse cenário. Dentre 26 ramos do setor acompanhados pela CNI, 88% dizem estar com estoques iguais ou menores que o previsto. Isso pode favorecer a continuidade do aumento da produção de forma a recompor esses estoques e atender à demanda, explica o Iedi.

Outro alento é o indicador de confiança da indústria, que está em alta.

O secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia, Carlos da Costa, reconhece que há gargalos a serem superados até que o ritmo de produção na indústria seja restabelecido.

Ao participar de evento com o setor de siderurgia na semana passada, ele disse que o país experimenta uma retomada “em V maiúsculo”, repetindo uma imagem que o ministro da Economia, Paulo Guedes, gosta de usar para descrever recuperação forte após queda brusca:

— Com a economia voltando, o que vai sustentar a demanda é a própria economia, o retorno das atividades. Os informais vão voltar a trabalhar, os formais vão voltar a ser contratados, as empresas vão voltar a demandar. Já está acontecendo isso.

A taxa de desemprego no trimestre encerrado em julho no país alcançou o patamar recorde de 13,8%, o equivalente a 13,1 milhão de pessoas. No total, falta trabalho para 32,9 milhões de brasileiros no período, de acordo com o IBGE.

Em agosto, o Brasil teve saldo de 249.388 vagas de trabalho formais no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), melhor resultado para o mês desde 2010. O dado, porém, não pode ser comparado ao do IBGE porque considera apenas registros de empregos formais no mês avaliado.

A CNI vem monitorando as pressões que afetam a indústria neste momento. Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da entidade, avalia que, mesmo depois que a oferta se normalizar, o desafio dos custos e do consumo no país vai permanecer.

 

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