SINDICATO DOS AUDITORES FISCAIS DA RECEITA ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO

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Pressão nos preços

O aumento nas cotações do dólar e do petróleo nas últimas semanas acendeu o alerta das empresas. Levantamento feito pelo GLOBO mostra que indústrias tão diversas como as de trigo e eletroeletrônicos têm segurado os repasses para evitar a queda no consumo. Mas, com margens mais reduzidas, afirmam que, se a tendência persistir, o consumidor começará a sentir no bolso em junho os reflexos da escalada da moeda americana, que chegou nesta segunda-feira a R$ 3,62, e do barril do Brent, que já supera os US$ 78. Estes segmentos vão se juntar a outros, como a indústria química e a de combustíveis, que já incorporaram no preço dos produtos a pressão nos custos.

Somente neste ano, a divisa subiu 9,5%. O barril do petróleo acumula avanço de 19% até esta segunda-feira. A expectativa, dizem economistas, é que os preços continuem subindo no mercado internacional em meio a tensões geopolíticas com a saída dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã, a expectativas de aumento de juros nos EUA e a incertezas com a eleição no Brasil.

De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães (Abimapi), as empresas ainda não repassaram para os consumidores os preços maiores do trigo, cujo valor segue a cotação do dólar. Claudio Zanão, presidente executivo da Abimapi, lembra que o trigo mais caro se reflete na farinha de trigo, matéria-prima para pães, que responde por 70% do custo dos produtos.

- As empresas estão absorvendo os custos crescentes e reduzindo suas margens. Estamos tentando segurar o aumento, mas não vai ter jeito. Os custos para as empresas já subiram 10% no último mês. E o repasse vai ocorrer conforme o dólar subir - disse Zanão.

O embaixador Rubens Barbosa, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), lembra que o preço para a indústria já subiu 40% neste ano. Um fator adicional de pressão é que os exportadores argentinos estariam adiando embarques de trigo ao Brasil à espera de novos aumentos na cotação do dólar para elevar ganhos.

- A safra brasileira foi ruim, o que ajudou os preços a subirem. Temos um problema para abastecer o mercado até setembro deste ano, quando começa a colheita. Os moinhos brasileiros estão sofrendo com a falta de produto e estão preocupados em saber como vão conseguir atender à demanda. Estamos tentando que o governo autorize a importação de trigo fora do Mercosul sem as tarifas de importação - afirmou Barbosa.

Além dos pães, os fabricantes de eletroeletrônicos evitam aumentar preços num momento de demanda ainda fraca. Mas, segundo Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), se a cotação da moeda americana continuar em alta, o setor terá de repassar para o consumidor. Ele destaca que o segmento de eletroeletrônico importa US$ 25 bilhões por ano. Desse valor, 60% são componentes para televisores, celulares e computadores.

- As empresas estão segurando repasses, reduzindo margens. Ninguém esperava o dólar tão alto. É uma surpresa para as empresas, que têm seu balanço afetado. Vamos esperar o que acontece com o câmbio até o fim de maio e início de junho. Dependendo da evolução, o repasse vai acontecer, e os descontos, comuns em produtos que estão sendo lançados, vão ser menores — disse Barbato.

O professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Aloisio Campelo destacou que as empresas vivem um momento difícil, pressionadas pela alta de custos e pelo consumo fraco:

- Há um desânimo e uma piora na confiança. As indústrias estão segurando o investimento. Mas as altas de petróleo e dólar pioram as contas das empresas. Se continuar subindo, não tem o que fazer, e haverá repasse. Mas isso não vai criar um choque na economia.

A inflação acumulada em 12 meses até abril está em 2,76%. Nos quatro primeiros meses do ano, porém, a taxa é de 0,92%, o menor patamar para o período desde o Plano Real. O centro da meta de inflação para este ano é de 4,5%.

Diferentemente do setor de alimentação, a indústria química já repassa parte dos custos. Dados da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) mostram que os preços dos produtos químicos básicos importados subiram 38% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano passado. Fátima Giovanna Coviello Ferreira, diretora de Economia e Estatística da Abiquim, lembra que os itens mais comprados no exterior são as matérias-primas para a produção de fertilizantes, defensivos agrícolas e fármacos. Entre o que é importado e produzido no país, os preços dos produtos químicos básicos subiram 7,2% de janeiro a março.

- A indústria química já chegou ao seu limite de redução de custos e melhorias internas. O setor está pressionando seus clientes. Há um limite para repassar os custos. As altas do dólar e do petróleo podem estimular a produção nacional de químicos, que hoje tem ociosidade de 20%. A dependência de importações no segmento deixou o país vulnerável às flutuações do câmbio e dos preços - observou Fátima.

O economista Paulo Bruck diz que não há espaço na economia para um repasse imediato. Ele lembra que o comércio tem buscado novos fornecedores para amenizar as altas nos custos:

- Os aumentos nas cotações refletem a diferença de tempo entre a compra e a chegada da mercadoria. Em razão disso, o efeito na inflação tende a ser um pouco mais demorado.

O consumidor já sente no bolso a alta dos combustíveis. A Petrobras elevou o valor da gasolina para as refinarias de R$ 1,7072, no dia 14 de março, para R$ 1,933, no último dia 12, alta de 13,2%. No caso do diesel, o valor subiu 11,7% para R$ 2,2162. Outros fatores interferem no preço final como os impostos e os reajustes dos revendedores.

Fernanda Delgado, professora da FGV diz que o quadro econômico não permite repasse na mesma proporção:

- Não dá para repassar tudo. As cotações do petróleo e do dólar não dão sinais de que vão cair, o que é bom para as petroleiras.

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