SINDICATO DOS AUDITORES FISCAIS DA RECEITA ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO

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Cabral envolve Adriana Ancelmo pela 1ª vez

Em seu primeiro depoimento à Justiça na condição de delator, o ex-governador do Rio Sérgio Cabral confirmou, pela primeira vez, que sua mulher, a advogada Adriana Ancelmo, sabia da existência de seu "caixa paralelo" formado a partir de dinheiro público desviado da administração estadual fluminense e propinas. Até então, Cabral vinha tentando isentar Adriana de culpa nos processos a que ambos respondem. A mudança de posicionamento acontece após o acordo de delação dele com a Polícia Federal ter sido homologado pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo Cabral, Adriana não sabia das contas no exterior, mas tinha conhecimento do recebimento de recursos ilícitos.

- Nunca abri para ela (sobre as contas no exterior), nem para nenhum filho, ex-mulher, ninguém. Era um cuidado que eu tinha. Só o Carlos Miranda (operador de Cabral e delator) e eu sabíamos os nomes e valores das contas. Ela (Adriana) sabia que eu tinha um paralelo, sabia que meus gastos eram incompatíveis com a minha receita formal — afirmou o ex-governador, em depoimento ao juiz Marcelo Bretas.

Ele disse ainda que a mulher "usufruiu" largamente desse caixa. O ex-governador confirmou as acusações dos procuradores. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), Cabral ocultou cerca de R$ 4 milhões desviados com a ajuda do empresário Italo Garritano, dono da rede de restaurante japonês Manekineko - R$ 3,1 milhões apurados nesta ação e quase R$ 1 milhão investigado em outro processo. O esquema teria ocorrido por meio do escritório de advocacia de Adriana Ancelmo entre 2014 e 2016.

- Eu confirmo a emissão de notas fiscais por parte do escritório da minha mulher, Adriana, para colher e atender a demanda dessa empresa com recursos de valores indevidos obtidos por mim - afirmou Cabral.

O pleito para que o esquema fosse colocado em prática, segundo Cabral, foi levado pela própria Adriana que, por sua vez, recebeu a demanda do sócio Thiago Aragão.  Apesar de envolver a mulher no esquema de lavagem de dinheiro, o ex-governador declarou que Adriana "nunca sentou com nenhum fornecedor" do estado.

Ouvida na mesma audiência, Adriana Ancelmo apenas reafirmou o que já havia declarado em um processo anterior, em que negou o esquema de uso de seu escritório para lavar dinheiro desviado do estado e afirmou que a relação com a rede de restaurantes envolvia prestação de serviços. Em nota, o advogado de Adriana Ancelmo, Alexandre Lopes, atribuiu as declarações de Cabral ao desespero diante das condenações, que somam 282 anos.

“Não vejo como possível levar a sério esse novo depoimento de Sérgio Cabral. Se ele sequer mencionou o fato à Polícia Federal, ao que se sabe, em sua delação, passa-se a ideia de que o ex-governador quer se posicionar como um colaborador da Justiça, confessando tudo o que lhe for perguntado, a fim de auferir benefícios que nem mesmo o Supremo Tribunal Federal concedeu. Parece desespero pelos quase 300 anos de pena já impingida", diz a nota.

Atualmente, Cabral está preso em Bangu 8 e Adriana, em liberdade com uma tornozeleira eletrônica.

Esta é a primeira vez que Cabral é ouvido como delator, já que o acordo de colaboração dele com a Polícia Federal foi homologado pelo ministro Edson Fachin, mesmo a contragosto do MPF. Com isso, seu rosto não será mais filmado nos depoimentos, procedimento adotado com delatores e que valeu para o ex-governador na oitiva de hoje. Bretas até brincou com a situação ao falar para Cabral sentar de costas para a câmera, dizendo que ele foi "promovido".

Logo no início, o MPF falou que a validade e a chancela do selo de colaborador só serviria quando fatos dos processos fossem, de fato, elucidados. Bretas, então, disse a Cabral:

— O MPF não ter sido parte não desnatura a colaboração. Ainda assim é uma colaboração e o senhor será tratado dessa forma.

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