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Alívio nos mercados não deve se traduzir em retomada mais forte

Embora o tombo do nível de atividade no segundo trimestre pareça não ter confirmado projeções mais catastróficas, a melhora ante março das condições financeiras, que é um indicador antecedente do desempenho econômico, não é sinal de que a retomada após o fundo do poço será forte. A avaliação é de Luana Miranda, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV) e uma das responsáveis pelo Índice de Condições Financeiras (ICF) da entidade.

No Boletim Macro de junho, Luana aponta que o alívio dos mercados no Brasil e no mundo em relação ao fim do primeiro trimestre se baseou na crença de que há uma recuperação econômica pujante a caminho. Houve deterioração dos dados nos últimos dias, mas ainda assim o ICF brasileiro está longe do nível de aperto do fim de março, quando mostrou condições tão ruins como as observadas no terceiro trimestre de 2015.

 “Não corroboramos essa hipótese [de recuperação pujante], sobretudo no caso do Brasil”, diz a pesquisadora, para quem o descolamento entre os mercados e os dados da “economia real” deve ser muito maior do que o habitual no segundo trimestre. O Ibre espera redução de 9,8% do PIB no período em relação aos três primeiros meses do ano, feitos os ajustes sazonais - o que seria a maior queda da história recente do Brasil, segundo estimativas do instituto para o PIB trimestral desde 1980.

Mensurado em desvios-padrão acima ou abaixo da média histórica, o ICF do Ibre, que tem medição diária, fechou em 0,84 ponto na sexta, depois de ter alcançado 1,9 ponto em meados de março - segundo maior resultado da série, atrás apenas dos 3,3 pontos registrados durante a crise financeira de 2008. Números abaixo de zero indicam condições financeiras frouxas, e acima disso, apertadas.

Lançado neste ano pelo instituto, o ICF agrega componentes de preços (commodities, petróleo e câmbio, por exemplo), de confiança dos agentes e incerteza econômica, e variáveis do mercado financeiro, como índices das bolsas de valores nacional e internacionais, medidas de risco-país e spreads de juros.

“O índice de condições financeiras é, por definição, um poderoso previsor do PIB, visto que é formado por retornos de ativos financeiros com capacidade de prever a atividade econômica futura, além da previsibilidade contida no presente e passado da própria atividade econômica”, aponta Luana.

Ele mostra que as condições financeiras por aqui ficaram mais favoráveis a partir de 22 de maio, quando o aumento da busca por investimentos mais arriscados nos mercados globais valorizou os ativos brasileiros. “O contexto global de reabertura econômica e sinais de melhora apontados por índices de confiança [PMIs], além de dados positivos no mercado de trabalho norte-americano, impulsionaram esses resultados”, observa.

Ao longo de junho, houve correção nos preços dos ativos brasileiros, destaca Luana, devido ao aumento de casos de covid-19 em algumas economias em estágio de reabertura, em especial nos Estados Unidos. Isso gerou temor sobre a possibilidade de novas medidas de confinamento e reação mais lenta do que o precificado anteriormente, disse.

Outros fatores que elevaram a aversão ao risco e afetaram mais os mercados de países emergentes, como o Brasil, foram o corte nas estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a atividade global e as tensões comerciais entre EUA e países europeus, acrescentou. Ainda assim, pondera Luana, houve melhora das condições financeiras brasileiras em relação ao pior período, da segunda metade de março. “Essa melhora sugeriria uma retomada mais forte.”

Ela explica que as condições financeiras são um indicador preditivo para o PIB um trimestre à frente e, por isso, não era esperado que os dois indicadores caminhassem juntos no segundo trimestre. A julgar pelo comportamento dos mercados, contudo, a reação no terceiro trimestre seria mais significativa, diz, quadro que não deve se confirmar. O Ibre estima que o PIB vai crescer 4,5% de julho a setembro, menos da metade da queda projetada para os três meses antecedentes.

“Estamos ainda na fase aguda da pandemia, nossa curva de crescimento de novos casos ainda não foi achatada. Contudo o processo de flexibilização da quarentena já foi iniciado, o que aumenta a probabilidade de novas ondas de contágio ainda mais intensas”, afirma Luana.

Caso isso ocorra, seria necessário prolongar as medidas de quarentena, o que levaria a piora mais aguda nos dados de atividade, prejudicando também o quadro fiscal e a solvência da dívida pública, acrescenta. “As incertezas são muitas. Não podemos, portanto, descartar os riscos de um cenário econômico recessivo mais intenso e prolongado.”

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