SINDICATO DOS AUDITORES FISCAIS DA RECEITA ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO

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Fiscal tem dinheiro?

18/08/2008
FRANCISCO JOSÉ FERRARO GENU - MÚSICO AMADOR, ESCRITOR E FISCAL DE RENDA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Está na ordem do dia o assunto da recuperação da imagem da classe dos fiscais de rendas. Nossa má fama nos persegue nos botequins, nas festinhas, nas matérias da imprensa etc. Autoridades se sentem à vontade de nos negar direitos, jogando-nos na cara a história da péssima imagem. Recentemente, um fiscal quase ficou à míngua num processo de divórcio, pois o juiz tinha a firme intenção de confiscar seu salário, a partir de uma explicação exótica: "Fiscal tem dinheiro".

Sobretudo por conta da corrupção, a sociedade não nos tem em bom conceito, o que acaba nos prejudicando.

Todavia, seria possível reverter esse quadro. Há pouco tempo, assisti a uma entrevista com Washington Olivetto. O publicitário tem uma compreensão aguda de certas questões da vida. Prendeu-me a atenção a seguinte pergunta: "É possível recuperar a imagem de alguém ou de um produto, afetada por algum incidente negativo?". Olivetto não hesitou: "Sim. Vejamos o caso do Ronaldinho com os travestis. A pior coisa para o Ronaldinho seria negar o fato, dizer que nada aconteceu. O segredo está na verdade".

É pena que nós, fiscais, tenhamos sempre agido na contramão dessa orientação, ao nos recusarmos a encarar a corrupção. Ora desviamos de assunto, ora negamos sua existência, ora assumimos ares de "coitadinhos", ora culpamos o interlocutor de atitude preconceituosa etc. Aqui entre nós: tudo bobagem, nada disso resolve problema nenhum. Diante de denúncias concretas de desvios, nossos argumentos têm sido lastimáveis: "Existe corrupção em qualquer classe, em qualquer lugar". Convenhamos: não passa de uma tautologia essa história de "existe corrupção em qualquer lugar", algo como dizer que vermelho é vermelho. Para falar assim, seria melhor não falar nada.

Seria bem melhor que ponderássemos de forma diferente.

Vejamos:

Os fiscais de rendas não podem ser melhores do que o contexto social e político no qual estão inseridos. Infelizmente, aqui no Estado do Rio, esse contexto não tem contribuído muito, tamanha a quantidade de denúncias de ilícitos em todos os lugares.

Além disso, nossa classe não pode deixar de ter os mesmos problemas de qualquer outra que detenha algum poder. Por exemplo: políticos e policiais. Ora, políticos têm o poder de aprovar leis que afetam a vida das pessoas; policiais, o de prender ou coibir ilícitos. Seria surpreendente que não houvesse, vez por outra, casos de corrupção nessas classes. Da mesma forma, nós, fiscais, temos a prerrogativa de exigir para o Estado um dinheiro que, por iniciativa própria o contribuinte jamais pagaria de bom grado. Sem esquecer que nossa sociedade vê o suborno do guardinha com uma cerveja como a saída mais eficaz para seus delitos.

Evidentemente, saber da possibilidade de corrupção na fiscalização não nos deixa satisfeitos nem inertes. Fiscais vêm se movimentando para propor ao governo um conjunto de controles que, aumentando a transparência de todo o processo de fiscalização, possa contribuir para reduzir os desvios de conduta. Isso, claro, sem nenhuma caça às bruxas, sem exclusão nem perseguição a ninguém. Lavar a roupa suja dentro de casa é sempre mais salutar. Se não tomamos a iniciativa, mais cedo ou mais tarde aparece alguém de fora para fazer isso por nós e aí os resultados nunca são muito bons.

Há dois mil anos se sabe que fiscais não foram feitos para serem amados pela população. Contudo, devemos ao menos esperar que a sociedade nos respeite.
 

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